J. Kenneth Grider - Predestinação como Temporal Apenas

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Predestinação como Temporal Apenas

 

J. Kenneth Grider

 

Um dos achados teológicos mais interessantes que eu tenho feito nos últimos anos é que a nossa predestinação por Deus não parece ter a ver com o destino eterno.

 

Deus realmente nos predestinou de determinadas maneiras. Seis vezes a palavra para “predestinar” é usada no Novo Testamento. Além dos casos de cognatos dessa própria palavra “proorizo”, outras palavras com “pro” são encontradas em ambos os Testamentos, as quais também mostram que Deus faz pré-decisões sobre vários assuntos. E Deus às vezes faz decretos, como os reis fazem, de acordo com a Escritura. Mas o meu estudo recente sugere que nenhuma destas referências tem a ver com o nosso destino eterno, mas apenas com outras questões.

 

A fim de se concentrar no que a Escritura ensina sobre a predestinação como eu tenho considerado o assunto por último, talvez algo devesse ser dito primeiramente a respeito dos pontos de vista sobre a predestinação, os quais tem sido desenvolvidos historicamente, após o que, vou discutir a predestinação como eu penso que ela deve ser ensinada. O leitor que está familiarizado com o assunto da predestinação pode não querer ler o que aparece aqui sob o tema “As Quatro Visões Históricas da Predestinação”, e querer ler sobre a direção que o meu pensamento toma como discutido sob o título “Predestinação Temporal”.

 

As Quatro Visões Históricas da Predestinação

 

Pelo menos quatro visões da predestinação têm surgido historicamente – apenas três delas são as mais importantes.

 

Uma delas é a visão da predestinação sublapsariana.[1] Esta é a visão de que Adão era livre no seu pecado crucial, mas uma vez que ele pecou livremente, o destino eterno de cada pessoa em toda a história humana foi decidido de forma completamente soberana por Deus. Este ponto de vista deveria ter sido chamado pós-lapsarianismo, porque significa que após a queda, ou o lapso, o destino de cada pessoa foi decidido por Deus. Esta é a visão de Agostinho, o primeiro teólogo, oriental ou ocidental, a ensinar a predestinação incondicional. Esta é uma visão incondicional porque a predestinação não está condicionada sobre se uma pessoa reúne ou não qualquer condição tal como a de se arrepender e crer em Cristo. Agostinho acreditava, curiosamente, que o número dos seres humanos incondicionalmente predestinados a ir para o céu é igual ao número de anjos que caíram.

 

Tiago Armínio acreditava que Agostinho adquiriu a idéia para sua doutrina a partir dos Estóicos[2] e Emil Brunner sugeriu a mesma coisa. Agostinho lia e apreciava os Estóicos e ele poderia muito bem ter tomado emprestado deles este ponto de vista, pois eles ensinavam uma doutrina que é semelhante. Eles – os Estóicos – ensinavam que existe uma lei de necessidade pela qual o universo inteiro, bem como tudo em seu funcionamento e até mesmo o próprio Deus, está sujeito a ela. É possível, também, que em sua doutrina, Agostinho tenha emprestado esta visão a partir dos Gnósticos,[3] pois eles também ensinavam uma doutrina que era semelhante. Eles – os Gnósticos – ensinavam, em geral, que todos os indivíduos nascem ou com certa centelha divina da gnose, o conhecimento, ou que eles são simplesmente almas animais que nasceram sem esse conhecimento. Alguns Gnósticos acreditavam que algumas pessoas são “médiuns” que podem mudar seu destino eterno, mas, na maioria dos casos, os Gnósticos acreditavam que cada um de nós está predestinado incondicionalmente a receber a salvação ou a não desfrutá-la.

 

Agostinho poderia ter necessitado de fluência para ler melhor o grego e por causa disso, ter sido significativamente influenciado pelos escritos gregos dos Gnósticos. No entanto, alguns dos ensinamentos de sua predestinação são tão semelhantes ao ensino dos Gnósticos, que pode ter havido uma influência deles sobre a sua visão.[4] Agostinho sentiu, é claro, que ele estava ensinando nesse ponto da mesma forma que a Escritura faz.

 

Além de Agostinho, Martinho Lutero ensinou a predestinação sublapsariana. Lutero foi semelhante a Agostinho, em muitos aspectos, com exceção de suas doutrinas da Igreja e da Ceia do Senhor. Esta usual semelhança incluía a questão da predestinação. O próprio Lutero disse que não sabia qual o destino eterno a que ele próprio estava predestinado. Ele disse que isso minaria o nosso ser justificado pela fé, se pudéssemos saber, isto é, ter conhecimento do nosso destino predestinado.

 

Outro ponto de vista é da predestinação supralapsariana.[5] É a visão de que Adão não foi livre no seu pecado, e que até seu destino eterno, juntamente com o destino de todos os outros, foi determinado por Deus antes da criação de Adão e antes mesmo da criação do mundo. Esta opinião poderia ter sido chamada pré-lapsarianismo, da mesma forma como o sublapsarianismo deveria ter sido chamado pós-lapsarianismo. Ninguém ensinou claramente o supralapsarianismo antes de Calvino, e nem sequer é certo que Calvino o fez. Parece, no entanto, que em Acordo dos Pastores de Genebra ele ensina o sublapsarianismo, enquanto que pela sua obra magna, As Institutas da Religião Cristã, parece ensinar o supralapsarianismo. Não tornando completamente claro se Adão foi livre no primeiro pecado, Calvino ensina, certamente, pelo menos, uma visão sublapsariana. Ele escreve: “E assim também são os próprios infantes, visto que trazem a sua condenação com eles desde o ventre de suas mães, estão expostos à punição, e não por causa de outro pecado, mas por causa dos seus próprios pecados”.[6] Dos infantes reprovados Calvino diz que “...até mesmo toda a sua natureza é como se fosse uma semente de pecado, e não pode ser de outra forma, senão odiosa e abominável a Deus”.[7]

 

O genro de Calvino, no entanto, Teodoro Beza (1519-1605), que ensinou por muito tempo na escola de Calvino, em Genebra, e foi um dos professores de Tiago Armínio, definitivamente ensinou a predestinação incondicional supralapsariana. Da mesma forma, ela foi ensinada e promovida na Holanda, na Universidade de Leiden, por um então colega de Armínio, chamado Francisco Gomarus (1563-1641). Ao mesmo tempo, no final do século XVI e início do século XVII, alguns supralapsarianos começaram a ensinar esse ponto de vista de uma forma ligeiramente alterada: supralapsarianismo modificado. Aqui, o ponto de vista é modificado de modo que não há decreto positivo para a reprovação, há apenas um único decreto, através do qual Deus elege alguns, em toda a raça humana, para serem salvos eternamente – e aqueles que foram preteridos, vão para o inferno eterno, simplesmente porque esse é o seu justo merecimento, uma vez que pecaram de uma maneira real, quando Adão pecou (não havendo decreto positivo através do qual Deus os reprove). Isto foi ensinado por alguns, de modo a parecer um pouco mais suave. Os supralapsarianos tinham sido acusados de comprometer a bondade de Deus, ensinando a chamada dupla predestinação, em que há um decreto positivo para reprovação. Dando atenção a essas críticas, eles pensaram que poderiam proteger melhor a bondade de Deus, se eles ensinassem que não havia nenhum decreto de reprovação. A Confissão Belga foi citada, visto que a liberdade humana foi discutida, como razoavelmente ensinando algum tipo de predestinação e afirmando também que os não eleitos simplesmente vão para seu próprio lugar, sem nenhum decreto de reprovação. No entanto, nenhum único teólogo de expressão daqueles tempos ensinou o supralapsarianismo modificado.

 

Uma quarta visão da predestinação é a predestinação condicional[8] de Tiago Armínio. Armínio ensinava que Deus predestinou cada pessoa para um destino eterno, mas que esta predestinação se baseia no pré-conhecimento de Deus da livre resposta ou livre rejeição do evangelho pelo indivíduo. Esta é às vezes chamada de predestinação de classe: que Deus predetermina que a classe inteira daqueles que crêem livremente está predestinada a ir para o céu, e que está predeterminado que todos aqueles que, embora sendo ajudados pela graça preveniente, rejeitam a Cristo, vão para o castigo eterno.

 

Depois que Calvino e outros deram tanta importância aos decretos de Deus, Armínio também ensinou os decretos, porém, mudou a ordem dos mesmos. Na sua Declaração de Sentimentos,[9] entregue por ele em 1608, perante as autoridades governamentais em Haia, ele discute a predestinação com cuidado, procurando ganhar a permissão para que o seu tipo de visão pudesse ser promovida nas igrejas, juntamente com os demais pontos de vista. Enquanto os supralapsarianos ensinavam que o primeiro decreto foi salvar e condenar certos indivíduos e que o decreto subseqüente foi criá-los, Armínio ensinava que o primeiro decreto de Deus foi o de enviar Cristo para redimir os pecadores. Ele disse que o segundo decreto de Deus foi receber em graça aqueles que se arrependem e crêem. O terceiro decreto é o da graça preveniente: ajudar a todos a se arrependerem e crerem. O quarto decreto, para Armínio, foi salvar e condenar indivíduos de acordo com o pré-conhecimento de Deus a respeito da maneira pela qual os indivíduos iriam responder livremente à Sua oferta de graça.

 

É interessante que Armínio sentiu que os decretos eternos, os quais nunca são, evidentemente, mencionados na Bíblia (somente os planos e propósitos de Deus são mencionados), devem fazer parte de um sistema teológico. Eles – os decretos – provavelmente não fazem parte de um tipo de teologia Arminiana. Certa vez, eu sugeri isto a H. Orton Wiley e ele me disse que o Arminianismo realmente necessita de decretos. Mildred Wynkoop, no entanto, tem sugerido o que eu acho que está correto: que os decretos são inadequados para o Arminianismo.[10]

 

Dr. Carl Bangs mostra em seu estudo importante sobre Armínio[11] que, de muitas maneiras, Armínio tentou ser tão conciliador quanto possível em relação aos Calvinistas de seu tempo, visto que ele ministrava em uma denominação reformada. Isto poderia explicar, em parte, o seu uso de decretos em sua teologia. Outra coisa que poderia ter figurado neste estudo foi a sua proximidade aos Calvinistas: talvez ele estivesse tão perto deles que não teve a perspectiva da distância que nos diz respeito agora e não estivesse completamente afastado dos pontos de vista que ele já havia exposto anteriormente.[12]

 

Assim, Armínio ensinava que Deus já predestinou algumas pessoas para a felicidade eterna e outros para o tormento eterno, mas que essa predestinação é baseada em Seu pré-conhecimento das suas respostas livres à oferta de graça. Ele ensinava a predestinação condicional ou de classe, ensinava a predestinação individual com base no pré-conhecimento e ensinava os decretos incluindo o seu quarto decreto.

 

Predestinação Temporal[13]

 

A doutrina da predestinação a qual tenho ultimamente chegado a pensar a respeito do que certamente é ensinado nas Escrituras, e que me parece ser de modo geral basicamente Arminiana, é a que poderia ser chamada de predestinação temporal. Por isto eu quero dizer o entendimento de que a predestinação não tem a ver com uma pré-decisão de Deus em relação ao destino eterno das pessoas, mas que ela tem a ver com questões temporais as quais Deus graciosamente decide em favor dos crentes – ou seja, só tem a ver com os cristãos.

 

O verbo para “predestinar”, proorizo, ocorre seis vezes no Novo Testamento, e não há nenhuma palavra equivalente no hebraico do Antigo Testamento. Os exemplos estão em Rm 8.29, 30; Ef 1.5, 11; At 4:28 e 1Co 2.7. A King James Version (KJV) – Versão do Rei Tiago – traduz como “predestinar” apenas nos primeiros quatro desses casos, e como “determinado antes” e “ordenado”, respectivamente nos outros dois casos. A American Standard Version (ASV) – Versão Padrão Americana – a traduz como “pré-ordenar” em todos os seis casos; a Revised Standard Version (RSV) – Versão Padrão Revisada – verte esta palavra como “predestinados” em Rm 8.29, 30; a New American Standard Bible (NASB) – Nova Bíblia Padrão Americana – a traduz como “predestinados” em todos os seis casos e a New International Version (NIV) – Nova Versão Internacional – a traduz como “predestinados” em Rm 8.29 e Ef 1.5, 11, “decidiu de antemão” em At 4.28 e “destinados” em 1Co 2.7.

 

Isto significa que a palavra grega para “predestinar” é relativamente rara nas Escrituras. No entanto, existem inúmeras palavras com o prefixo “pro” em que elas têm a ver com a pré-decisão de Deus ou do homem para fazer algo em um momento posterior, e elas, pelo menos, se relacionam com a idéia de predestinação ou predeterminação. Palavras que têm a ver com a previsão de acontecimentos posteriores, como no caso dos profetas do Antigo Testamento, também até certo ponto se relacionam com a idéia de predestinação. A preposição “pro” para “antes” é usada muitas vezes no Novo Testamento para se referir ao que Deus fez, prometeu ou planejou antes da criação do mundo (veja Jo 17.5; 1Co 2.7; Ef 1.4; 2Tm 1.9; Tt 1.2; 1Pe 1.20 e Jd 25).[14]

 

Contrariamente ao que tem sido entendido pela maioria dos cristãos desde o tempo de Agostinho, parece-me que a predestinação na Escritura não tem a ver com o destino eterno. Todas as várias teorias da predestinação: as visões sublapsariana, supralapsariana, supralapsariana modificada e a predestinação condicional de Armínio, se referem à predestinação ao destino eterno. No entanto, nas seis passagens nas Escrituras onde a palavra é usada, o destino eterno não é referido. Em nenhuma das seis passagens nas Escrituras Deus predestinou qualquer pessoa ou qualquer grupo de pessoas (crentes ou descrentes) para a felicidade eterna ou condenação eterna.

 

Pegue os casos de proorisen em Rm 8.29, 30. Lá, lemos: “Pois aqueles que Deus de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou, e aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou”. Aqui, “predestinou”, provavelmente não é usado com referência ao destino eterno – embora, talvez, um caso melhor possível poderia ser feito para tal referência (o destino eterno) no verso 30, do que pode ser feito para essa referência (o destino eterno) em qualquer uma das outras passagens sobre a predestinação. Esta passagem – Rm 8.29 – declara que “aqueles que Deus conheceu de antemão”, significando certamente aqueles que Ele previu que creriam, “também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”. Ou seja, ele pré-determinou que aqueles que crerão serão conformados à semelhança de Cristo. Conformados, aqui, symorphous, é um adjetivo, oriundo de syn (com) e morphe (forma) – e a morphe (forma) provavelmente se refere à essência de algo.[15] A semelhança de Cristo que o Pai predestina para os crentes é, evidentemente, apenas uma semelhança aproximada, do tipo que diz respeito ao que é possível para nós, como seres humanos com nossos erros e finitude. A questão aqui, porém, é que o destino eterno não entra em cena de forma alguma.

 

Deve também ser percebido que no versículo seguinte – verso 30 – o mesmo tipo de significado (não-destino eterno) provavelmente se obtém. Lá, “aqueles que Ele predestinou” (baseado em seu pré-conhecimento, de acordo com o verso anterior), ele “chamou”, e aos que chamou, “justificou”, e aos que justificou, “glorificou”. Aqui – verso 30 –, ao contrário do que prevalece no verso anterior – verso 29 –, o escritor aponta, finalmente, uma palavra que tem a ver com o destino eterno: a glorificação. Assim, poderia eventualmente ser interpretado que a predestinação tem a ver com o destino eterno – e ela tem, finalmente. Mas o texto declara que, tendo predestinado ou predeterminado para os crentes, através do Seu pré-conhecimento (verso 29), que eles creriam livremente, Ele os chamou e os justificou – e, talvez, por causa do Seu pré-conhecimento de sua persistência como crentes, Ele “os glorificou”.[16] Como mencionado, o destino eterno é referido nesta passagem, mas a referência ao destino eterno está tão dissociada daquilo que é propriamente dito estar predestinado, que esta destinação à glorificação dificilmente pode ser dita que é o que está propriamente predestinado.

 

Armínio, e os que poderiam ser chamados de Arminianos autênticos, ensinam o pré-conhecimento de Deus de nossos atos – da mesma forma que os Calvinistas. São os Socinianos, desde o início, no Protestantismo, e os que, finalmente, bem poderiam ser chamados de falsos Arminianos (tais como os Personalistas de Boston),[17] que têm negado o pré-conhecimento de Deus. Tanto Arminianos quanto Calvinistas o têm ensinado porque a Escritura seguramente o faz – aqui em Romanos, por exemplo, e nas várias predições bíblicas (especialmente quando as pessoas as cumpriram sem planejarem agir assim, como Judas fez). Assim, em Rm 8.30, Deus prevê que as pessoas vão crer, e no devido tempo, Ele as chama a si de várias maneiras como através da pregação e pela convocação do Espírito. E conforme elas respondem favoravelmente a este apelo, ele as justifica. Em seguida, ainda com base no seu pré-conhecimento (ver verso 29) de que esses indivíduos persistirão como crentes, Ele os glorifica. Aqui Paulo recruta um grande número de seus conceitos teológicos, em uma extensa declaração da predestinação.

 

Que este não é provavelmente um ensino Agostiniano-Calvinista da predestinação de alguns, dos eleitos por quem Cristo morreu, para a glorificação, é mostrado por outros ensinamentos neste mesmo capítulo de Romanos e em outros escritos Paulinos. Conforme Paulo abre o que temos definido como o capítulo 8, ele afirma que os que não têm “nenhuma condenação” são aqueles entre nós que estão “em Cristo”. Prossegue nos versos 3-4 para dizer que nós que estamos “em Cristo” não estamos simplesmente predestinados, de alguma forma, mas que Deus “condenou o pecado” em si mesmo e em nós, “a fim de que as exigências justas da lei possam ser plenamente reunidas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. E, que os crentes não são predestinados no sentido da segurança eterna, é mostrado pelo que ele pergunta no final do capítulo, depois de fazer as duas referências à predestinação nos versos 29, 30. Ele pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo” (verso 33). Nem a “tribulação”, nem o “sofrimento”, nem “a perseguição”. Nada. É de notar, porém, que estas coisas não serão capazes de nos separar do “amor” de Cristo. Uma pessoa pode, em perseguições ou qualquer outra coisa, cair da graça salvadora como Simão, o Mago fez (At 8.9-24), mas mesmo se alguém cair da graça regeneradora, ele ou ela não está separado do amor de Cristo. Cristo ainda ama mesmo a pessoa apóstata que crucifica Cristo novamente pela sua rejeição de Cristo (confira Hb 6.4-6).

 

Os dois exemplos de cognatos de proorizo em Ef 1.5, 11 (proorisas, verso 5 e prooristhentes, verso 11) são semelhantes às duas palavras para predestinação em Rm 8.29, 30; elas não dizem respeito ao destino eterno. Em Efésios, temos uma das mais ricas áreas do ensino a respeito da predestinação na Bíblia. Embora apenas duas palavras reais para a predestinação apareçam na epístola, a idéia de Deus ter feito certas decisões pré-determinadas é proeminente. Paulo afirma primeiro que ele é um apóstolo “pela vontade de Deus” (verso 1), o que nos lembra que ele disse em outro lugar que Deus “me separou desde o nascimento e me chamou pela sua graça....” (Gl 1.15).

 

Então ele diz em Ef 1.4 que “aquele que n’Ele nos escolheu antes da criação [fundação na New American Standard Bible (NASB)] do mundo para sermos santos e irrepreensíveis diante dele”. Assim, antes de criar o mundo, Deus decidiu que aqueles que livremente creriam seriam escolhidos, e que seriam “santos” e “irrepreensíveis”. Nada é dito aqui que tem a ver com o nosso destino eterno. Paulo prossegue com uma palavra mais forte do que “escolhido”. Ele diz no versículo 5 que o que Deus “predestinou”, ou pré-determinou, foi que nós seríamos “adotados como filhos por Jesus Cristo, em conformidade com o beneplácito da sua vontade....” E no verso 11 ele diz: “Nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano Daquele que realiza tudo em conformidade com o propósito da Sua vontade, a fim de que nós, que fomos os primeiros a confiar em Cristo, sejamos para o louvor de sua glória”.

 

Várias coisas devem ser observadas aqui. No verso 5, a predestinação não é para o céu ou o inferno, mas “para serem adotados como seus filhos através de Jesus Cristo.” Isto é, Deus pré-determinou que aqueles que creriam – os crentes sendo mencionados no verso 13 – seriam adotados como Seus filhos. No verso 11, a predestinação, novamente, não é para o destino eterno, mas “a fim de que nós... sejamos para o louvor de sua glória”. O “nós” aqui é provavelmente uma referência ao próprio Paulo, pois suas próximas palavras parecem, em distinção, se referir a seus leitores, quando ele diz, “E vocês também foram incluídos em Cristo”. Novamente, é de notar que eles não foram incluídos quer queira quer não de acordo com uma eleição incondicional. Paulo diz: “E vocês também foram incluídos em Cristo quando ouviram a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação. E tendo nele crido, vocês...” (verso 13). Eles foram incluídos na realidade presente depois de “ouvirem a palavra da verdade” e depois de terem “crido”.

 

As outras duas das seis passagens do Novo Testamento Grego “para predestinar” precisam ser consideradas. A de Atos 4:28 se lê na New International Version (NIV) – Nova Versão Internacional: “Eles fizeram o que o Seu poder e a Sua vontade haviam decidido de antemão que deveria acontecer”. Esta versão é semelhante à da King James Version (KJV) – Versão do Rei Tiago – em não verter como “predestinar.” A American Standard Version (ASV) – Versão Padrão Americana – [e a Revised Version (RV) – Versão Revisada] verte “pré-ordenar” aqui como em todas as seis passagens para “predestinar” (proorizo). A Revised Standard Version (RSV) – Versão Padrão Revisada – verte “predestinar”.

 

O exemplo de um cognato de proorizo, “predestinar”, aqui, proorisen, não tem a ver com uma predestinação para um ou outro dos dois destinos eternos. Pedro e João haviam sido liberados pelas autoridades, e quando eles tinham ido “para seu próprio povo” (verso 23), estes crentes louvaram a Deus porque “elas”, as autoridades, “fizeram o que o poder e vontade de Deus decidiram de antemão que devia acontecer”. A predestinação, portanto, tinha a ver com a pré-decisão de Deus, baseada em seu pré-conhecimento, de que os apóstolos iriam sair livremente, sendo permitido assim ser feito pelas autoridades. O que quer que seja, nada é dito ou implícito que tenha a ver com o destino eterno.

 

Na passagem de 1Co 2.7, onde a mesma forma da palavra predestinação aparece, proorisen, a New International Version (NIV) – Nova Versão Internacional – diz: “Agora falamos da sabedoria secreta de Deus, uma sabedoria que estava oculta e que Deus destinou para nossa glória antes do começo dos tempos”. A King James Version (KJV) – Versão do Rei Tiago – traz aqui “decreta” como faz a Revised Standard Version (RSV) – Versão Padrão Revisada –, porém a New American Standard Bible (NASB) – Nova Bíblia Padrão Americana – verte “predestinou”. Novamente, ela não se refere a um dos destinos eternos. Paulo está simplesmente dizendo que ele e outros “falam uma palavra de sabedoria entre os maduros [perfeitos]” (verso 6), “que estava escondida” – e que esta palavra “Deus destinou”, ou predestinou, “para nossa glória antes do começo dos tempos” (verso 7). A passagem mostra que Deus planejou oferecer o evangelho antes mesmo dele criar o homem, como Armínio ensinava, ao qual Armínio chamou de primeiro decreto de Deus, e que era o de enviar Cristo. O que implica no pré-conhecimento de Deus de que nós, seres humanos, pecaríamos e necessitaríamos de redenção. Ela nada tem a ver com uma pré-decisão para dar o céu a alguns indivíduos e o inferno a outros.

 

Além destes seis exemplos de cognatos de proorizo no Novo Testamento (não havendo nenhuma palavra equivalente no Hebraico do Antigo Testamento), existem, como mencionado anteriormente, numerosas palavras na Bíblia Grega e Hebraica com o prefixo “pro” e que se relacionam com o que ou Deus ou o homem decidem fazer antes do tempo.[18] No entanto, em nenhuma delas que eu tenho checado indica que Deus pré-decide o destino individual.

 

Além disso, o que está aqui sendo chamada predestinação temporal não tem a ver com os decretos do destino eterno, ou com o que muitas vezes são chamados decretos inalteráveis do destino eterno – não obstante Armínio e Wiley pensem assim. Embora a Escritura fale freqüentemente de “decretos” e “editos” de “um rei ou um grupo governante,” e de serem inalteráveis como no caso daqueles dos Medos e dos Persas (confira Ed 6.11; Et 8.8 e seguintes; Dn 6.8)[19] – os quais raramente falam de Deus fazendo decretos de qualquer tipo. E quando isso acontece, não são decretos relativos ao destino eterno. Eles simplesmente têm a ver com Suas deliberações. Assim, lemos: “Então o Senhor fez um decreto e uma lei para eles, e lá Ele os testou” (Êx 15.25). Aqui o decreto de Deus é simplesmente uma lei, como os reis freqüentemente fazem. Assim, lemos que um decreto é o mesmo que um pacto:

 

Ele se lembra de Sua aliança para sempre

A palavra que Ele ordenou, por mil gerações,

O pacto que fez com Abraão,

O juramento que fez a Isaque.

Ele a confirmou a Jacó por decreto (1Cr 16.15-17).

 

Em outro raro exemplo de um decreto quando relacionado a Deus, mais uma vez é simplesmente uma decisão de Sua vontade. Lemos: “Embora conheçam o justo decreto de Deus que aqueles que fazem tais coisas merecem a morte, não só continuam a fazer estas mesmas coisas, mas também aprovam os que as praticam” (Rm 1.32). Aqui, a decisão não é arbitrária, inescrutável, e misteriosa, através da qual o destino é decidido sem levar em conta as ações do indivíduo. Ela diz respeito “àqueles que fazem tais coisas”, quais são referidas na lista de pecados recém-mencionada nos versos 29-31. Deus decreta uma “catástrofe” (1Re 22.23, 2Cr 18.22, Jr 40.2), uma fome (2Re 8.1), e outras questões deste tipo, mas os decretos são simplesmente Suas decisões, ou Seus acordos, e eles normalmente anunciam o que vai acontecer na terra, consoante à obediência ou desobediência das pessoas.

 

Portanto, a predestinação, segundo o que me parece finalmente revelada, não tem nada a ver com o destino eterno, e as poucas referências bíblicas aos decretos de Deus não se referem a qualquer tipo de destino. Tanto a predestinação quanto os decretos (e várias outras pré-decisões da parte de Deus) têm a ver com a vida presente dos crentes.

 

Assim, a predestinação, segundo as Escrituras, não tem nada a ver com o destino eterno, mas com questões temporais. Além disso, até mesmo as pré-decisões de Deus, onde cognatos de proorizo não aparecem, não têm nada a ver com o destino eterno – nem a ver com os decretos de Deus.

 

Esses entendimentos aos quais eu cheguei recentemente são apenas adotados provisoriamente, no momento presente. Considero tanto a igreja em seus longos debates teológicos que não me precipito concluir que as diversas opiniões de teólogos sobre a predestinação, por muitos séculos, estavam todas incorretas. Mas esta é a maneira na qual eu me encontro vendo esta matéria no presente momento, assim como estou aberto a ser ensinado de forma diferente pelas interpretações dos meus pares – irmãos e irmãs – que podem tomar a caneta na mão, e da mesma forma, no Wesleyan Theological Journal – Jornal Teológico Wesleyano –, apontarem para mim os meus erros.

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos



[1] Nota do tradutor: Esse ponto de vista também é conhecido como Infralapsarianismo. De acordo com o artigo de Phillip R. Johnson, intitulado: Notas sobre Supralapsarianismo & Infralapsarianismo, disponível no site www.monergismo.com, a suposta ordem dos decretos para esse ponto de vista é a seguinte: 1- Criar; 2- Permitir a Queda; 3- Eleger alguns, ignorar o restante; 4- Providenciar salvação para os eleitos; e 5- Chamado do eleito à salvação.

[2] Nota do tradutor: Estóico: Diz-se daquele que revela fortaleza de ânimo e austeridade. Impassível; imperturbável; insensível. O estoicismo é uma doutrina filosófica que afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos divino (noção que os estóicos tomam de Heráclito e desenvolvem). A alma está identificada com este princípio divino, como parte de um todo ao qual pertence. Este Lógos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos (termo que em grego significa “harmonia”). O Logos que de todo o anima está presente em todas as coisas como lógoi spermatikoi, as razões seminais de tudo o que acontece. Como o mundo é eterno e o Logos é sempre o mesmo, inevitavelmente, repetir-se-ão todos os acontecimentos (Eterno Retorno), uma e outra vez. O mundo se desenvolve em grandes ciclos cósmicos (aion, ano cósmico), de duração determinada, que ao final dos quais, tudo recomeçará novamente, até nós mesmos. Cada ciclo termina com uma conflagração universal ou consumação pelo fogo, a partir do qual, brotará novamente os elementos (ar, água e terra) que compõem todos os corpos, começando assim um novo ciclo. O estoicismo propõe viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença (apathea) em relação a tudo que é externo ao ser. O homem sábio obedece à lei natural reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo. O estoicismo floresceu na Grécia com Cleantes de Assos e Crisipo de Solis, sendo levada a Roma no ano 155 a.C. por Diógenes de Babilônia. Ali seus continuadores foram Marco Aurélio, Séneca, Epiteto e Lucano. A partir disso surgem duas conseqüências éticas: deve-se «viver conforme a natureza»: sendo a natureza essencialmente o logos, essa máxima é prescrição para se viver de acordo com a razão. Sendo a razão aquilo por meio do que o homem torna-se livre e feliz, o homem sábio não apreende o seu verdadeiro bem nos objetos externos, mas bem usando estes objetos através de uma sabedoria pela qual não se deixa escravizar pelas paixões e pelas coisas externas. A última época do estoicismo, ou período romano, caracteriza-se pela sua tendência prática e religiosa, fortemente acentuada como se verifica nos Discursos e no Enchiridion de Epiteto e nos Pensamentos ou Meditações de Marco Aurélio. A escola estóica foi fundada no século III a.C. por Zenão de Cítio (de Cittium), e que preconizava a indiferença à dor de ânimo oposta aos males e agruras da vida, em que reunia seus discípulos sob pórticos (“stoa”, em grego) situados em templos, mercados e ginásios. Foi bastante influenciada pelas doutrinas cínica e epicurista, além da clara influência de Sócrates. A Teologia Estóica é panteísta: não existe um Deus fora da natureza ou do mundo; é o próprio mundo como um todo que é divino, o que justifica que a crença nos deuses, que apesar de sua heterogeneidade, é universal. A concepção de um Kosmos dotado de um princípio inteligente que o guia leva a uma visão determinista do mundo aonde nada aleatório pode acontecer: tudo é regido por uma lei racional que é imanente (como seu Logos) e necessária; o destino é apenas uma determinada cadeia de eventos (causas) ligados entre si: Os eventos anteriores são a causa daqueles que se seguem, e deste modo todas as coisas estão ligadas umas às outras, e assim não acontece nada no mundo que não seja conseqüência daquela e ligada à mesma como a sua causa. [Stoicorum Veterum Fragmenta (SVF), II, 945, edição H. von Armin., Reimpressão Stuttgart, 1964]. O aleatório não existe; é o simples desconhecimento dos acontecimentos causais. Se a nossa mente pudesse captar o total encadeamento (conexão) das causas, poderia entender o passado, conhecer o presente e prever o futuro. Este mundo é o melhor de todos os possíveis e nossa presença contribui para este projeto universal, de modo que, como veremos, não há por que temer o destino, mas aceitá-lo – como se pode notar, segundo Grider, este parágrafo sobre a Teologia Estóica resume o ponto onde existe a conexão do pensamento de Agostinho, a respeito da predestinação e determinismo, com os Estóicos. (Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo e http://es.wikipedia.org/wiki/Estoicismo)

[3] Nota do tradutor: Gnóstico: Aquele que tem o conhecimento; que tem a Sabedoria. O Gnosticismo tem por origem etimológica o termo grego “Gnosis”, que significa “conhecimento”. Mas não um conhecimento racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a “episteme” dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental – a Sabedoria, que leva à salvação. É usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua essência eterna, centelha divina, maravilhosa e crística, pela via do coração. É uma realidade vivente sempre ativa, que apenas é compreendida quando experimentada e vivenciada pelos iniciados. Assim sendo jamais pode ser assimilada de forma abstrata, intelectual e discursiva. Gnosticismo designa o movimento que originou-se provavelmente na Ásia menor, e tem como base as filosofias pagãs, que floresciam na Babilônia, Egito, Síria e Grécia. O gnosticismo combinava alguns elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas, mistérios de Elêusis, bem como os do Hermetismo, com as doutrinas do Cristianismo e do Sufismo. Em seu sentido mais abrangente, o Gnosticismo significa “a crença na Salvação pelo Conhecimento” (Joan O’Grady). A posse da Gnosis significa a habilidade para receber e compreender a revelação. O verdadeiro Gnóstico é aquele que conhece a revelação interior ou oculta desvelada e que também compreende a revelação exterior ou pública velada. Ele não é alguém que descobriu a verdade a seu respeito por meio de sua própria desamparada reflexão, mas alguém para quem as manifestações do mundo interior são mostradas e tornaram-se inteligíveis. O início da Perfeição é a Gnosis do Homem, porém a Gnosis de Deus é a Perfeição aperfeiçoada. “Aperfeiçoamento” é um termo técnico para o desenvolvimento na Gnosis, sendo o Gnóstico realizado conhecido como o “perfeito”. Se trata de uma doutrina, segundo a qual os iniciados ou escolhidos não são salvos pela fé no perdão através do sacrifício de Cristo, mas se salvam através da Gnose, ou conhecimento introspectivo do divino, que é um conhecimento superior à fé. Nem a fé somente, nem a morte de Cristo é suficiente para salvar. O ser humano é autônomo para se salvar. O gnosticismo é uma mística secreta da salvação. É um “mix” sincretista de crenças orientais e idéias da filosofia grega, especialmente a Platônica. É uma crença dualista: O bem diante o mal, o espírito diante da matéria, o ser supremo diante do Demiurgo, a alma diante do corpo. Em 1945, foi descoberta uma biblioteca de manuscritos gnósticos em Nag Hammadi (Egito), o que permitiu uma melhor compreensão de suas doutrinas, anteriormente conhecidas apenas através de citações, refutações, apologias e heresiologias feita pelos Pais da Igreja. De acordo com os cristãos, o Gnosticismo foi fundado por Simão – o mago,  um personagem que aparece em uma narrativa dos Atos dos Apóstolos no Novo Testamento (Atos 8:9). Sua personalidade mais importante foi Valentim de Alexandria, que levou a Roma a doutrina gnóstica intelectualizante. Em Roma teve um papel ativo na vida pública da Igreja. Seu prestígio era tal que foi cogitado como possível bispo de Roma. Outros Gnósticos de renome são Paulo de Samósata, que escreveu uma célebre heresia sobre a natureza de Cristo; Carpocrates que concebeu a idéia da liberdade moral dos perfeitos, na prática, uma total ausência de regras morais. Finalmente, a ampla gama de variação moral do gnosticismo era vista com desconfiança, o que levou o bispo Irineu de Leão a declará-la heresia em 180 d.C., parecer que compartilha também a Igreja Católica. O Gnosticismo cristão, pagão em suas raízes, chegava a apresentar-se como representante de sua tradição mais pura. O texto gnóstico Eugnostos, o Beato, parece ser anterior ao nascimento de Cristo. A enorme diversidade de doutrinas e “escolas gnósticas” torna difícil falar de um único gnosticismo. Observando as definições do Gnosticismo até agora apresentadas, é possível compreender por que Grider argumenta que Agostinho possuía alguns denominadores comuns em seu pensamento sobre a predestinação com o pensamento dos Gnósticos, que resumidamente, poderiam ser: 1) Seu caráter iniciatório: Através do qual, certas doutrinas secretas de Jesus Cristo estavam destinadas a serem reveladas a uma elite de iniciados ou escolhidos. Assim, os gnósticos cristãos afirmavam ser testemunhas especiais de Cristo com acesso direto ao conhecimento do divino através da gnose ou experimentação introspectiva, através da qual se podia chegar ao conhecimento das verdades transcendentes e à salvação. A gnose era pois, a mais alta forma de conhecimento, disponível apenas para esses iniciados – os demais seres humanos ficavam sem acesso. 2) O próprio conhecimento das verdades transcendentes – só compreendidas pelos cristãos gnósticos – produzia a salvação. De acordo com as várias correntes, a importância da prática de uma vida cristã poderia variar, sendo em qualquer caso, secundária. (Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gnosticismo e http://es.wikipedia.org/wiki/Gnosticismo)

[4] Veja U. Grant Browning, “The Influence of Greek Thought Upon Christian Theology Through the Medium of Gnosticism – A Influencia do Pensamento Grego Sobre a Teologia Cristã através do Gnosticismo”, tese de Bacharel em Divindade (B.D.), Seminário Teológico Nazareno, 1957, páginas 133-137.

[5] Nota do tradutor: De acordo com o artigo de Phillip R. Johnson, intitulado: Notas sobre Supralapsarianismo & Infralapsarianismo, disponível no site www.monergismo.com, a suposta ordem dos decretos para esse ponto de vista é a seguinte: 1- Eleger alguns, reprovar o restante; 2- Criar; 3- Permitir a Queda; 4- Providenciar salvação para os eleitos; e 5- Chamado do eleito à salvação.

[6] João Calvino, Institutes of the Christian Religion – Institutas da Religião Cristã, 8ª edição, tradução John Allen (Grand Rapids: Eerdmans, 1949), I, 1, 8.

[7] Idem, I, 1, 8.

[8] Nota do tradutor: Esse ponto de vista poderia muito bem ser, na verdade, chamado de sublapsarianismo, como faz o Dr. Henry Clarence Thiessen em suas Lectures in Systematic Theology – Palestras em Teologia Sistemática, no capítulo 28, intitulado Election and Vocation – Eleição e Vocação, a partir da página 257, cuja ordem dos decretos ele elenca: 1- Deus decreta criar o homem; 2- Deus decreta permitir a queda; 3- Deus decreta proporcionar em Cristo redenção suficiente para todos; 4- Deus decreta eleger alguns para salvação – através do seu pré-conhecimento; 5- Deus decreta enviar o Espírito Santo para assegurar a aceitação da redenção por parte do eleito – através da graça preveniente ou preventiva. Essa ordem apresentada por Thiessen é a mesma que é apresentada no artigo de Phillip R. Johnson, intitulado: Notas sobre Supralapsarianismo & Infralapsarianismo, disponível no site www.monergismo.com, como sendo a ordem do Arminianismo. A única diferença patente entre essa ordem e a referida por J. Kenneth Grider (ou seja, a que ele afirma ser de Armínio) se encontra na quantidade de decretos (Armínio menciona apenas 4 decretos, enquanto Thiessen menciona 5 decretos). Comparando as duas ordens de decretos, vemos que Armínio omitiu os dois primeiros decretos de Thiessen; que o 1º decreto de Armínio equivale ao 3º decreto de Thiessen; que o 2º e o 3º decretos de Armínio se fundem e equivalem ao 5º decreto de Thiessen; e que o 4º decreto de Armínio equivale ao 4º decreto de Thiessen. Apesar dessa diferença, as duas ordens se equivalem e o resultado é o mesmo – a ordem do Arminianismo Clássico, a qual é reconhecida pelos Calvinistas. Thiessen apenas apresenta a ordem de forma mais elaborada e didática em comparação com as ordens apresentadas tanto pelo Infralapsarianismo quanto pelo Supralapsarianismo.

[9] Tiago Armínio, “Declaration of Sentiments – Declaração de Sentimentos”, The Works of James Arminius - As Obras de Tiago Armínio (Grand Rapids: Baker Book House, 1956).

[10] Mildred Wynkoop, Foundations of Wesleyan-Arminian Theology – Fundamentos da Teologia Arminiana-Wesleyana (Kansas City: Beacon Hill Press, 1967), páginas 101-105.

[11] Carl Bangs, Arminius: A Study in the Dutch Reformation – Armínio: Um Estudo na Reforma Holandesa (Nashville: Abingdon Press, 1971).

[12] Idem, páginas 71, 350-355.

[13] Nota do tradutor: Isto é, esse tipo de predestinação tem a ver com as coisas do presente, dentro do tempo e que estão unicamente relacionadas aos crentes. Veja antepenúltimo parágrafo.

[14] A Nova Versão Internacional (NVI) está sendo usada, salvo indicação em contrário.

[15] Veja Ralph Earle, Word Meanings in the New Testament – Significado das Palavras no Novo Testamento, Volume 3, Romanos, (K.C.: Beacon Hill Press, 1974), página 166.

[16] Idem, página 167.

[17] Nota do tradutor: O Personalismo é uma escola de pensamento filosófico-teológico que consiste em três princípios fundamentais: Somente as pessoas são reais (no sentido ontológico); somente as pessoas têm valor e somente as pessoas têm livre-arbítrio. Ele tem sido encontrado em muitos pensadores ao longo dos séculos: Anaxágoras (500–430 B.C.); Sócrates (469–399 B.C.); Platão (427–347 B.C.); Aristóteles (384–322 B.C.); Agostinho (354–430); Boécio (480–524); Avicenna (980–1037); São Tomaz de Aquino (1225–1274); René Descartes (1596–1650); Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716); George Berkeley (1685–1753); Immanuel Kant (1724–1804), o Papa João Paulo II (1920-2005), entre outros. (fonte: http://www.personalism.pl/biannual/number-1/a-presentation-of-personalism/). Na França, o filósofo Emmanuel Mounier (1905-1950) foi o principal proponente do personalismo, em torno do qual ele fundou a revista L’Esprit, que continua a existir até hoje. Na América, o Personalismo floresceu no início do século 20 na Universidade de Boston em um movimento conhecido como Personalismo Bostoniano ou Personalismo de Boston e foi liderado pelo teólogo Borden Parker Bowne. Bowne enfatizou a pessoa como a categoria fundamental para explicar a realidade e afirmou que apenas as pessoas são reais. Ele estava em oposição a certas formas de materialismo que descrevem as pessoas como meras partículas de matéria. Por exemplo, contra o argumento de que as pessoas são insignificantes partículas de poeira no vasto universo, Bowne diria que é impossível para todo o universo existir à parte de uma pessoa para experimentá-lo. Ontologicamente falando, a pessoa é “maior” do que o universo, porque o universo é apenas um pequeno aspecto da pessoa que o experimenta. O Personalismo afirma a existência da alma. A maioria dos Personalistas afirma que Deus é real e que Deus é uma pessoa (ou, como no Trinitarianismo Cristão, três pessoas, embora seja importante notar que o significado de o termo “pessoa” neste contexto é significativamente diferente do uso de Bowne). Bowne também declarou que as pessoas têm valor. Ao declarar o valor absoluto da personalidade, ele combateu contra certas formas de naturalismo filosófico (incluindo o darwinismo social), que pretendia reduzir o valor das pessoas. Ele também se destacou contra certas formas de positivismo, que procurava reduzir a importância de Deus. Martin Luther King, Jr. foi muito influenciado pelo personalismo em seus estudos na Universidade de Boston. King veio a concordar com a posição de que somente a personalidade é real. Ele solidificou sua compreensão de Deus como um Deus pessoal. O personalismo também lhe deu uma base metafísica para a sua crença de que toda a personalidade humana tem dignidade e valor. (ver seu ensaio “Peregrinação à Não-violência”). (Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Personalism). A despeito de ser encontrado no pensamento de homens da mais alta envergadura durante toda a história humana, a pesada ênfase sobre o ser humano, bem como o fato do mesmo ter a palavra e a ação final, ou seja, escolher e decidir por si próprio a respeito de qualquer assunto ou matéria (inclusive os espirituais como a salvação ou condenação), talvez, conduza o Personalismo a se aproximar muito do Pelagianismo, termo que é oriundo de Pelágio, monge da Bretanha do século V, o qual se opôs a Agostinho na controvérsia sobre o pecado original (onde a ênfase extremada na liberdade humana conduz a uma salvação alcançada à parte da graça de Deus) e também do Arminianismo Extremado, também conhecido como Teologia da Abertura ou Teologia do Processo, termo que surgiu em 1980 com o teólogo adventista Richard Rice no seu livro The Openness of God: The Relationship of Divine Foreknowledge and Human Free Will – A Abertura de Deus: O Relacionamento entre o Pré-conhecimento de Deus e o Livre-arbítrio Humano (onde a ênfase extremada sobre a abertura do futuro e sobre fatos contingentes resultantes da liberdade humana suprime o pré-conhecimento exaustivo de Deus a respeito de todas as coisas). Embora o autor não revele, é possível que por essas razões, além da negação do pré-conhecimento de Deus e dentre outras, ele assim entenda que os Personalistas de Boston e os Socinianos sejam falsos Arminianos.

[18] Um estudo de muitas destas palavras está contido em I. Howard Marshall, “Predestination in the New Testament – Predestinação no Novo Testamento”, em Grace Unlimited – Graça Ilimitada, edição Clark Pinnock (Minneapolis: Bethany Fellowship, 1975), página 127 e seguintes (ver também David J. A. Clines, “Predestination in the Old Testament - Predestinação no Antigo Testamento” também lá).

[19] Veja o artigo “Decree – Decreto”, The International Standard Bible Encyclopedia – A Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional, edição Geoffrey Bromiley (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans, 1979), I, 909.