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Richard Watson - Dicionário Bíblico e Teológico - Pelagianos

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PELAGIANOS, uma facção religiosa que surgiu no quinto século. Pelágio foi um monge britânico de certa posição e de uma reputação muito elevada. Ele, com seu amigo Celéstio, viajaram para Roma, onde viveram logo no início do quinto século, e se opuseram com veemência a certas opiniões aceitas a respeito do pecado original e da necessidade da graça divina. Não está claro como foi a recepção de suas doutrinas em Roma, mas seu mérito provocou aceitação geral. Com a aproximação dos godos, eles se mudaram para a África, onde Celéstio permaneceu, com o propósito de ser admitido como presbítero na igreja de Cártago. Pelágio prosseguiu para a Palestina, onde desfrutou do favor e proteção de João, Bispo de Jerusalém. Mas seu amigo e suas opiniões deram de cara com uma recepção diferente de Santo Agostinho, o célebre bispo de Hipona. Sejam quais fossem as regiões visitadas por estes amigos heterodoxos, eles ainda afirmavam suas opiniões peculiares, e gradualmente foram se engajando numa disputa acalorada, no curso da qual eles provavelmente foram levados a promover mais do que passaram por suas cabeças. Em sua luta pela verdade de suas doutrinas, dizem que eles afirmaram “que a humanidade não recebeu nenhum prejuízo do pecado de Adão, que somos agora tão capazes de obediência à vontade de Deus como ele foi, que, de outra forma, teria sido cruel e absurdo propor à humanidade o cumprimento de certos deveres, com a aprovação de recompensas e a ameaça de punições, e que, conseqüentemente, os homens são nascidos sem vício assim como sem virtude.” Pelágio também é acusado de ter afirmado “que é possível aos homens, contanto que eles plenamente empreguem os poderes e capacidades com que foram dotados, viver sem pecado,” e embora ele não tenha negado que a graça externa, ou seja, as doutrinas e as motivações do Evangelho, é necessária, todavia, dizem que ele rejeitou a necessidade da graça interna, ou as assistências do Espírito divino. Ele reconheceu “que o poder que possuímos de obedecer à vontade de Deus é um dom divino,” mas afirmou “que o controle deste poder depende de nós mesmos, que a morte natural não é uma conseqüência do pecado de Adão, mas da constituição física do homem, e que Adão teria morrido ainda que não tivesse pecado.” Isidoro, Crisóstomo e Agostinho vigorosamente se opuseram a estas opiniões, e as últimas obtiveram sua condenação em um sínodo realizado em Cártago em 412. Elas foram, entretanto, favoravelmente admitidas em Roma, e o Papa Zózimo este à frente do partido pelagiano, mas sua decisão contra os bispos africanos, que se opuseram ao Pelagianismo, foi desconsiderada por eles, e o pontífice submeteu-se finalmente aos seus argumentos e protestos, e condenou os homens que ele anteriormente tinha honrado com sua aprovação. O concílio de Éfeso igualmente condenou as opiniões de Pelágio e Celéstio, e o Imperador Honório, em 418, publicou um decreto que ordenava que os líderes da facção fossem expulsos de Roma, e seus seguidores exilados. Alguns dos pelagianos ensinaram que Cristo foi mero homem, e que os homens poderiam levar vidas sem pecado porque Cristo conseguiu, que Jesus se tornou Cristo depois do seu batismo, e Deus depois de sua ressurreição, um sendo resultado de sua unção, o outro do mérito de sua paixão. A controvérsia pelagiana, que começou com as doutrinas da graça e do pecado original, foi estendida para a predestinação, e provocou contínua discórdia e divisão na igreja. Deve entretanto ser lembrado que conhecemos os sentimentos de Pelágio somente por intermédio de seus oponentes, e que é provável que eles foram muito distorcidos. Veja AGOSTINHO.

Os seguidores do genuinamente evangélico Arminius, ou aqueles que afirmam a doutrina da redenção geral com as demais doutrinas que a acompanham, frequentemente têm sido imensamente difamados, pelos ignorantes entre os seus oponentes dogmáticos, como pelagianos, ou pelo menos, como semipelagianos. Pode entretanto ser útil à causa da verdade expor a adequada resposta que os arminianos holandeses deram à essa acusação quando levantada contra eles no sínodo de Dort, e que eles comprovaram e sustentaram por argumentos e autoridades que eram irrefutáveis. Em suas observações finais eles disseram, “De todas estas observações pode-se facilmente formar um julgamento da imensa distância que se encontram nossos sentimentos das afirmações dogmáticas dos pelagianos e semipelagianos sobre a graça de Deus na conversão do homem. Pelágio, em primeiro lugar, atribuía todas as coisas à natureza, mas nós não admitimos nada senão a graça. Quando Pelágio foi culpado de não confessar a graça, ele começou de fato a falar dela, mas é evidente que por graça ele entendia o poder da natureza tal como criado por Deus, isto é, a vontade racional, mas por graça entendemos um dom sobrenatural. Pelágio, quando posteriormente pressionado com passagens da Escritura, também admitiu esta graça sobrenatural, mas ele a reconheceu unicamente no ensino exterior da lei. Embora afirmamos que Deus oferece sua palavra aos homens, todavia também afirmamos que ele interiormente produz o entendimento para que possamos crer. Mais tarde, Pelágio acrescentou a esta graça externa aquela pela qual os pecados são perdoados. Nós admitimos não apenas a graça pela qual os pecados são perdoados, mas também aquela pela qual os homens são assistidos para que possam se abster da execução do pecado. Além dessas concessões anteriores, Pelágio admitiu que a graça de Cristo era indispensável além das duas maneiras que ele tinha enumerado, mas ele a atribuía inteiramente à doutrina e exemplo de Cristo para que fôssemos auxiliados em nossos esforços para não cometer pecado. Nós igualmente admitimos que a doutrina e exemplo de Cristo nos proporciona alguma ajuda na abstenção do pecado, mas além de sua influência nós também reconhecemos a dádiva do Espírito Santo com que Deus nos investe, e que ilumina nossos entendimentos, e confere força e capacidade em nossa vontade para abster de pecar. Quando Pelágio mais tarde confessou que a assistência do poder divino opera interiormente no homem pelo Espírito Santo, ele a identificou unicamente na iluminação do entendimento, mas nós cremos que não é apenas necessário que saibamos ou entendamos o que devemos fazer, mas que também é indispensável que imploremos a ajuda do Espírito Santo para que possamos nos tornar capazes de cumprir, e poder ter prazer no cumprimento, aquilo que é nosso dever fazer. Pelágio admitiu a graça (embora resta dúvida se ele pretendia dizer apenas uma iluminação ou, além disso, um poder comunicado à vontade), mas ele fez isto somente para mostrar que por meio dela o homem pode com maior facilidade agir corretamente. Nós, ao contrário, afirmamos que a graça é concedida, não para que possamos ser capazes de com maior facilidade agirmos corretamente (que é como se podemos fazê-lo até mesmo sem a graça), mas que a graça é absolutamente necessária para nos capacitar a, de qualquer modo, agir corretamente. Pelágio afirmava que o homem, longe de necessitar o auxílio da graça para o cumprimento das boas ações, é, pelos poderes nele implantados no momento de sua criação, capaz de cumprir toda a lei, de amar a Deus, e de dominar as tentações. Nós, ao contrário, afirmamos que a graça de Deus é necessária para o cumprimento de qualquer ato de piedade. Pelágio declarou que pelos esforços da natureza o homem torna-se digno da graça. Mas nós, em comum com a igreja universal, condenamos este dogma. Quando o próprio Pelágio posteriormente condenou esta crença, ele entendia por graça, em parte a graça natural, que é antecedente a todo mérito, e em parte a remissão dos pecados, que ele reconheceu ser imerecida, mas acrescentou que pelas obras executadas pelos poderes da natureza apenas, pelo menos por meio do desejo do bem e do anseio imperfeito por ele, os homens merecem essa graça espiritual pela qual eles são assistidos nas boas obras. Mas nós declaramos que os homens desejam aquilo que é bom por causa da graça preveniente de Deus, estimulando dentro deles um anseio pelo bem, do contrário a graça não seria mais graça, porque não seria imerecidamente concedida, mas somente em virtude do mérito do homem.” Que muitos que têm afirmado algumas crenças em comum com os verdadeiros arminianos têm sido, em graus diferentes, seguidores de Pelágio é bem conhecido, mas os arminianos originais estiveram na realidade tão distantes dos erros pelagianos ou semipelagianos, admitindo que as opiniões de Pelágio tenham sido corretamente relatadas pelos seus adversários, quanto dos próprios calvinistas. Este é também o caso com todo o grupo de metodistas wesleyanos, e das sociedades cognatas às quais eles deram origem, tanto na Grã-Bretanha quanto na América.

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