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Antonio Lazarini Neto - “Alicerces da Paternidade Cristã”

“Alicerces da Paternidade Cristã”

 

Antonio Lazarini Neto

 

“Decorrido o turno de dias de seus banquetes, chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles, pois dizia: Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim o fazia Jó continuamente.” Jó 1.5

 

O grande “nó” na educação de filhos nos dias atuais é, sem dúvida, a ausência de autoridade no seio da família. Talvez a própria natureza humana apresente um desconforto não só para estar debaixo de autoridade como para exercer a função de autoridade! Tedd Tripp, em seu livro “Pastoreando o Coração da Criança” suscita várias perguntas que nos levam a pensar na natureza da autoridade dos pais em relação aos seus filhos, das quais eu destaco algumas:

 

- A autoridade é investida sobre o pai ou a mãe em virtude da diferença de tamanho entre os pais e os filhos?

 

- Fomos investidos de controle por sermos mais inteligentes e mais experientes?

 

- Deus nos chamou a orientá-los porque não somos pecadores e eles o são?[1]

 

Por certo a resposta a essas perguntas é “não”. Todavia, na caminhada da maioria das famílias tidas como cristãs, a prática diária responderia “sim”! Muitos pais agem (às vezes também dizem!) de forma a dar a entender que os filhos devem obediência a eles ou porque são pequenos e eles são grandes, ou porque os filhos não têm experiência de vida ou porque olham para os filhos como pecadores reféns de certos comportamentos já há muito tempo vencidos e dominados pelos adultos.

 

No entanto, os pais são autoridade sobre os seus filhos porque Deus os colocou nesta posição. Mais ainda, os pais precisam exercer o seu papel de autoridade sobre os filhos deixando transparecer que estão fazendo essa tarefa em cumprimento às determinações divinas para o bem estar da família. Isso deve trazer transformações na atitude dos pais e, por certo, no modo como os filhos se sujeitam a eles.

 

Numa sociedade tão remota e num tempo tão primitivo, Jó demonstrou uma profunda compreensão do seu papel de pai! Ele não era apenas uma figura dentro de uma estrutura familiar, mas um pai ativo que interagia com seus filhos e abraçava a responsabilidade de instruí-los, interceder a favor deles e intervir em suas vidas.

 

Para tanto, é imprescindível reconstruir alguns alicerces para estabilizar e fortalecer a relação pais e filhos entre os cristãos. Longe de ser uma lista exaustiva, abaixo aponto algumas bases nas quais a paternidade cristã deveria se firmar.

 

1. Os pais também têm o dever de obedecer!

 

Pai e mãe precisam estar tomados por uma convicção de que a exigência para que seus filhos os obedeçam tem sua raiz no fato de que Deus os comissionou a criar os filhos na disciplina e na admoestação do Senhor (cf. Ef 6.4) e a ensiná-los no caminho da obediência (Pv 22.6). Nesse sentido, os pais também estão no exercício de sua obediência a Deus, persuadidos de que as ações paternais compostas por instruções, intervenções e até correções de disciplina nada mais são do que o “caminho da vida” (cf. Pv 6.23).

 

Assim, a relação entre pais e filhos não deveria caminhar no compasso das características pessoais de cada casal, mas na cadência dos mandamentos bíblicos impostos sobre os pais. Sendo bem pragmático, nenhum pai ou mãe deveria deixar transparecer a seus filhos que está exigindo obediência deles por estar simplesmente furioso num dado momento ou porque foi criado de um certo jeito e é conservador ou porque o modo de viver dos filhos está agredindo o seu próprio modo de ver a vida, mas, sobretudo, porque esse pai ou essa mãe está atuando debaixo da lei e da autoridade divina!

 

Os pais não podem exigir obediência de seus filhos porque seu gosto pessoal é ter filhos obedientes, mas porque Deus disse que eles precisam fazer dessa maneira. Quando os pais ensinam os filhos no caminho da obediência, mais do que realizando um sonho pessoal de ter filhos bem criados e educados, eles estão sendo fiéis às ordens divinas.

 

2. Os pais funcionam como agentes de Deus!

 

Quando saímos a campo e dialogamos com papais e mamães aqui e ali, não é difícil perceber que os casais (ou o pai sozinho e a mãe sozinha em alguns casos!) têm reduzido a tarefa da paternidade ao suprimento das necessidades básicas dos filhos, isto é, dar alimento, abrigo, vestimentas, lazer e educação escolar. Tedd Tripp lembra que Deus chamou os pais “a uma tarefa mais profunda do que alguém que cuida”.[2]

 

Os pais deveriam se ver como agentes de Deus e abraçar intensamente a tarefa de instruir, corrigir e treinar seus filhos, não apenas como “cuidadores”, mas fazendo o papel “discipuladores” que apontam aos filhos a todo momento a quem realmente estão submissos. No livro de Deuteronômio, a instrução à Israel foi “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (6.6-7).

 

Cabe aos pais fazer dos seus filhos discípulos comprometidos com os valores sociais, morais e espirituais claramente estabelecidos na Palavra de Deus. Em última análise, a questão não é se o filho obedece ao pai ou à mãe como um escravo ao seu senhor, mas se ele os segue como um discípulo ao seu mestre.

 

3. Os pais fazem o papel de treinadores com alvos claros e bem definidos!

 

Uma parcela significativa dos pais não tem alvos bem definidos para seus filhos. Em linhas gerais as metas dos pais acabam sendo imediatistas (por exemplo, se tem um filho bebê somente querem que ele durma a noite toda!), circunstanciais (por exemplo, se tem uma filha adolescente somente não querem que ela namore tão cedo aquele garoto indesejável!) e egocêntricos (por exemplo, alguns pais querem que o filho se torne um profissional numa determinada área visando ganhar muito dinheiro!).

 

Os pais correm o risco de canalizarem todas as suas energias para uma paternidade marcada pela autossafistação. Neste caso, a pergunta aos pais não é “o que querem para si mesmos”, mas sim, “o que querem para os seus filhos?” Lançando mão de uma linguagem da área da saúde, quando os pais não têm alvos claros e bem definidos para os filhos, acabam fazendo até um bom trabalho de “correção”, mas deixam a desejar no que tange à “prevenção”!

 

A educação de um filho pode ser reduzida a correções de comportamento que emergem de situações onde, ou os pais foram envergonhados, ou estão profundamente irritados com a criança (ou adolescente, ou jovem). E isso não é bom! As ações dos filhos podem ganhar uma dimensão que ocultará as atitudes do coração. Os alvos dos pais precisam estar voltados para o coração de seus filhos, na expectativa de que, quanto às instruções dadas, eles as prenderão perpetuamente aos seus corações e serão como colares no pescoço (cf. Pv 1.8-9).

 

O texto de Provérbios 6.20-23, além de belíssimo, é bastante adequado aqui: “Filho meu, guarda o mandamento de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe; ata-os perpetuamente ao teu coração, pendura-os ao pescoço. Quando caminhares, isso te guiará; quando te deitares, te guardará; quando acordares, falará contigo. Porque o mandamento é lâmpada, e a instrução, luz; e as repreensões da disciplina são o caminho da vida”. Se os pais não apontarem aos seus filhos a direção para onde devem ir, se não lhes mostrarem o “caminho da vida”, a possibilidade de estarem totalmente perdidos e distantes dos ideais divinos será significativamente real.

 

Concluindo, pode ser que alguém dirá: “Mas o problema é que meus filhos não me ouvem!” No entanto, eu creio que os pais podem persuadir seus filhos a uma melhor aceitação da instrução e correção. Pais e mães cristãos precisam encontrar sabedoria nas Escrituras Sagradas para lidar com seus filhos de tal modo que o coração deles se curvará em obediência e todos os processos neurais em suas mentes irão se convencer de que “o que rejeita a disciplina menospreza a sua alma, porém o que atende à repreensão adquire entendimento.” (Provérbios 15.32)

 

Fonte: http://www.vidanova.com.br/teologiadet.asp?codigo=221



[1] TRIPP, Ted. Pastoreando o Coração da Criança. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2000. p. 42.

[2] Ibid, p.46.

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Perguntas Respondidas

A morte de Cristo por todos os homens pode ser concluída de diversas passagens das Escrituras:

1 – Daquelas que dizem que ele morreu por “todo homem”, por “todos os homens”, por “todos”, pelo “mundo”, por “todo o mundo”:

Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. [2Co 5.14-15]

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. [1Tm 2.5-6]

Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. [Hb 2.9]

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. [1Jo 2.2]

2 – Daquelas que dizem que Deus em Cristo reconciliou o mundo:

Pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. [2Co 5.19]

3 – Daquelas que dizem que Cristo daria sua vida pelo mundo:

Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. [Jo 6.51]

4 – Daquelas que dizem que a graça veio sobre todos os homens:

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. [Rm 3.23-24]

Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida. [Rm 5.18]

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens. [Tt 2.11]

5 – Daquelas que dizem que Deus deseja a salvação de todos os homens:

Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? [Ez 33.11]

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. [1Tm 2.3-4]

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. [2Pe 3.9]

6 – Daquelas que dizem que o Evangelho deve ser pregado a todos os homens:

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. [Mc 16.15-16]

E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém. [Lc 24.46-47]

Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam. [At 17.30]

7 – Daquelas que dizem que Jesus veio salvar os perdidos:

Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. [Lc 19.10]

8 – Daquelas que dizem que Jesus é o Salvador do mundo ou de todos os homens:

E diziam à mulher: Já não é pela tua palavra que nós cremos; pois agora nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo. [Jo 4.42]

Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem. [1Tm 4.10]

E nós temos visto, e testificamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo. [1Jo 4.14]

9 – Daquelas que dizem que Jesus veio salvar o mundo:

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. [Jo 1.29]

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. [Jo 3.16-17]

E, se alguém ouvir as minhas palavras, e não as guardar, eu não o julgo; pois eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. [Jo 12.47]

Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, no apartar, a cada um de vós, das vossas maldades. [At 3.26]

10 – Daquelas que dizem que Jesus se entregou por aqueles que o rejeitam:

Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. [Jo 6.32-33]

11 – Daquelas que dizem que Jesus morreu pelos judeus:

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. [Is 53.6]

Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. [Jo 11:51]

12 – Daquelas que dizem que Jesus morreu pelos ímpios ou veio salvá-los:

Pois, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios. [Rm 5.6]

Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. [1Tm 1:15]

13 – Daquelas que dizem que Jesus morreu por aqueles que se perdem ou que correm risco de se perderem:

Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. [Rm 14.15]

Pela tua ciência, pois, perece aquele que é fraco, o teu irmão por quem Cristo morreu. [1Co 8.11]

De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça? [Hb 10:29]

Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. [2Pe 2.1]

A cláusula final, porque a fé não é de todos, visa ser uma explicação da conduta hostil dalguns. aqui pode ser entendida no sentido de confiança (nem todos os homens exercem fé) ou, menos provavelmente, como o corpo da fé (nem todos os homens aceitam a fé). As versões oferecidas por Frame, pág. 292, “pois a fé não é para todos” e “não são todos que são atraídos pela fé,” são menos prováveis que a de “porque nem todos os homens têm fé” (RSV), que entende a cláusula como espelho de experiência de Paulo. A declaração talvez pareça um pouco banal e desnecessária. Terá maior relevância se for visto não tanto como conclusão daquilo que acaba de ser dito quanto como introdução ao versículo seguinte; ou seja, Paulo a escreveu para servir de ligação com o versículo seguinte ao invés de ser uma declaração importante isoladamente. Ao mesmo tempo, a cláusula transmite o reconhecimento de Paulo de que, embora a oração seja em prol da pregação bem-sucedida da palavra, nem todos creem nem crerão.

I. Howard Marshall, I e II Tessalonicenses: Introdução e Comentário, p. 250

Uma correta compreensão de Efésios 1.1-11 começa com o reconhecimento de que o propósito de Deus para Israel estava desde o princípio limitado à preparação para a vinda do Messias, a saber, para a encarnação de Deus, o Logos, como a pessoa humana Jesus de Nazaré. Uma vez que o Messias veio, era o propósito eterno de Deus unir todos os crentes israelitas e todos os crentes gentios em um novo corpo chamado a igreja. Este é o ponto principal do livro de Efésios, e é a chave para o entendimento da frequentemente mal empregada passagem de Efésios 1.1-11.

É bastante óbvio que Efésios 1 coloca considerável ênfase na vontade de propósito de Deus ou sobre o que Deus deseja e decide fazer. O versículo 5 diz, “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito [eudokia] de sua vontade [thelema].” O versículo 9 diz, “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade [thelema], segundo o seu beneplácito [eudokia], que propusera [protithemi] em si mesmo.” Então, no versículo 11, lemos que “fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade.” Neste último versículo encontramos três palavras – prothesis, boule e thelema – praticamente empilhadas uma sobre as outras num esforço para ressaltar o conceito de propósito eterno.

Este último versículo também diz que Deus faz “todas as coisas” segundo o conselho da sua vontade. É por isso que os deterministas, tais como os calvinistas, falam de um decreto eterno que é todo-inclusivo e universal: Paulo não diz todas as coisas? Porém, aqueles que tomam isso num sentido absoluto ignoram o contexto imediato e o tema principal de Efésios como um todo. O termo “todas as coisas” (panta) não é necessariamente absoluto e deve ser entendido dentro das limitações impostas pelo contexto. Isso é visto claramente em 1Coríntios 12.6, que diz que Deus é aquele que “opera tudo [panta] em todos.” A linguagem é exatamente paralela a de Efésios 1.11; até o verbo é o mesmo [energeo]. No entanto, o contexto de 1Coríntios 12 claramente limita “todas as coisas” aos dons espirituais do Espírito Santo, e o versículo 11 diz bem especificamente: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.” De maneira similar, o contexto de Efésios 1.11 não nos permite pensar em “todas as coisas” num sentido absolutamente inclusivo, mas nos mostra o foco específico do propósito de Deus que está em vista aqui.

Qual é o foco? A chave para uma compreensão adequada deste encontra-se na referência de Paulo ao “mistério da sua vontade” no versículo 9. Qual é o mistério do qual Paulo fala aqui? Ele se refere a esse mistério novamente no capítulo 3, onde ele se maravilha de que a ele em particular foi dado o privilégio de conhecer este mistério. Ele diz que “como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi; por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo” (3.3-4). “A mim,” ele exulta, “o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus” (3.8-9). Devemos ter o cuidado de não tornar o mistério genérico demais, como se fosse simplesmente o fato de Cristo ou o fato da salvação. Não, é muito mais específico do que isso. Paulo o afirma mais especificamente em 3.6, a saber, “que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho.” Este é o grande mistério “o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” (3.5). E o apóstolo Paulo, nomeado para ser o apóstolo dos gentios, ficou simplesmente maravilhado com este fato. Ninguém estava mais comprometido com a exclusividade judaica do que Saulo de Tarso; assim, ninguém ficou mais surpreso com o fato de que Deus estava agora, em Cristo, abandonando essa exclusividade e unindo os gentios (os gentios!) com os judeus em um novo tipo de corpo chamado a igreja (3.10). No capítulo dois ele comenta o fato de que Jesus quebrou a barreira que dividia judeus e gentios e dessa forma dos dois grupos fez um novo homem, reconciliando ambos com Deus em um só corpo através da cruz (2.11-16). Até mesmo a sua referência ao casamento – “serão dois numa carne” – relembra-o novamente desse grande mistério, que os dois grupos (judeus e gentios) se tornaram um corpo em Cristo e sua igreja (5.31-32).

Este é o mesmo mistério sobre o qual ele está escrevendo no primeiro capítulo de Efésios. Sim, Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, mas qual conselho ou plano específico está em vista aqui? O plano para unir judeus e gentios em um só corpo chamado a igreja (3.10) para louvor da sua glória. Este propósito específico é visto nos versículos que imediatamente seguem 1.11: “... com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.12-14).

Nestes versículos (como em 1.4-11) o “nós” e o “vós” se referem aos judeus e gentios. Neste caso Paulo se identifica com os judeus, a quem ele chama de “os que primeiro esperamos em Cristo.” Nos versículos anteriores ele se detém no propósito de Deus para os judeus como nação: como Deus os escolheu (“nós”) antes da fundação do mundo, como ele os predestinou para adoção como filhos, como ele lhes ofereceu o evangelho da graça primeiro (veja Rm 1.16; 2.8-9). Deve ser notado que as referências à predestinação em Efésios 1 estão falando estritamente da predestinação da nação de Israel e não dos crentes individuais. Sua principal ênfase até o versículo 12 é sobre o propósito de Deus para os judeus (“nós”). Mas então nos próximos versículos ele começa falando na segunda pessoa, “vós,” ou seja, vós, os gentios. No versículo 12 ele diz que “nós os que primeiro esperamos em Cristo” fomos usados para louvor da sua glória, mas agora “também vós” foram trazidos para a esfera da salvação “para louvor da sua glória” (v. 14). Este é o tema que ele continua para desenvolver, em seguida, nos capítulos dois e três principalmente.

Assim, vemos que “todas as coisas” em Efésios 1.11 não têm uma referência universal; a vontade de propósito ou decretiva de Deus não inclui todas as coisas que acontecem em todo o âmbito da natureza e da história. Todavia, ela inclui o estabelecimento da igreja como o corpo que une judeus e gentios sob uma cabeça, Jesus Cristo (cf. 1.10). Esta é provavelmente a principal referência na comissão de Ananias a Saulo de Tarso, em Atos 22.14, “O Deus de nossos pais de antemão te designou para que conheças a sua vontade” (veja também Colossenses 1.27), a saber, a sua vontade de unir judeus e gentios em uma igreja.

Jack Cottrell - What the Bible Says About God the Ruler, 306-309

O escritor de Hebreus pede agora aos seus leitores que voltem o olhar para Jesus, exaltado acima de todos e assentado à destra do trono de Deus.

O verbo olhar – em olhando firmemente – é aphorontes (Αφορωντες), que significa tirar a vista das coisas que estão perto e desviam a nossa atenção e, conscientemente, fixar os olhos em Jesus como o nosso grande alvo. Significa ainda interesse que absorve por completo, perfeitamente expresso pelas palavras com olhos só para Jesus.

A expressão autor e consumador da nossa fé tem sido interpretada de várias maneiras. A palavra traduzida como autor é archegon (Αρχηγος), líder, pioneiro, sendo o mesmo vocábulo traduzido como capitão (da nossa salvação) em Hebreus 2.10 (KJ). A palavra consumador é teleioten (τελειωτής), aperfeiçoador, que completa (cp. Hb 10.14).

Em olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da nossa, o possessivo nossa [que aparece nas versões KJ e na NVI, mas não na ARA e na ARC], antes de , está em itálico ou entre parêntesis, pois no grego temos apenas a . No entanto, não significa a no sentido objetivo, como o fundamento cristão, mas subjetivo, como o princípio que rege o coração e a vida do ser humano.

A escolha da palavra archegon, líder ou pioneiro, em vez de aitios (αἴτιος), autor, no sentido de originador, é muito significativa. Como observou Davidson, na presente acepção, as palavras não “podem significar que Cristo, como Autor, originou a fé em nós e, como Aperfeiçoador, sustém-na e a leva a um resultado perfeito”, isto é, incondicionalmente quanto ao conceder e ao aperfeiçoar; a ênfase é, antes, sobre Cristo como o grande Pioneiro da fé que, na Sua vida terrena, tendo perfeitamente alcançado o ideal e terminado a corrida, está agora assentado à destra do trono de Deus.

Em Hebreus 2.10 a palavra archegon, como capitão (KJ), refere-se em especial à preparação de Jesus para a liderança; neste caso, Ele se tornou o Alvo da realização, o Centro de toda a visão cristã. No entanto, é ainda o Líder, que do Seu trono nos céus ministra pelo Espírito a força, a perseverança, paciência e toda a graça necessária em meio ao sofrimento e aos conflitos. Para os que o seguem com confiança, Ele se tornará o aperfeiçoador, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram (2 Ts 1.10 ARA).

A seguir, o autor da Epístola aos Hebreus passa a uma consideração da experiência de humilhação de Jesus, vividamente descrita para encorajamento dos leitores – palavras que são apenas a amplificação de Sua obra como o autor e consumador da fé.

O escritor encontra três semelhanças entre os herois da fé e Jesus. Pela fé, aqueles passaram por grandes lutas e aflições, em parte porque foram exibidos como espetáculo ignominioso, em parte porque se tornaram companheiros dos que foram alvos daquelas tribulações. Assim também Jesus, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia (Hb 12.2b). Esta oração é introduzida pela palavra anti (ἀντί), que significa dar em troca ou, especialmente aqui, em consideração de.

O vocábulo traduzido como alegria é charas (χαρά) – não aquilo a que Jesus renunciou ao encarnar, mas a alegria que lhe estava proposta. Era a alegria como recompensa do Seu autossacrifício pela salvação dos homens; um autossacrifício que em si mesmo era uma recompensa satisfatória. Mas significava também a alegria de ser exaltado ao trono de Deus e levar consigo a Sua natureza e a nossa, coroando assim a obra redentora por toda a eternidade. Era a alegria de administrar do trono a Sua vida celestial mediante o Espírito Santo, e assim aperfeiçoar para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Esta foi a alegria que lhe foi proposta – uma alegria que enche com a Sua glória.

 O que fez Jesus pra ter essa alegria? Suportou a cruz. Temos aqui de novo a palavra hupemeinem (ὑπομένω), anteriormente traduzida como paciência, mas aqui mais propriamente traduzida como suportou com perseverança.

A palavra traduzida como cruz é stauron (σταυρός), viga ou poste introduzido no chão para execução de criminosos, vindo depois a significar a cruz.

A frase não fazendo caso da ignomínia ou desprezando a afronta (ARC) foi chamada o grande paradoxo. Desprezar a afronta não significa que Cristo a tinha por desprezível, mas por pequena, comparada com a alegria que lhe foi proposta.

As palavras cruz e vergonha (NVI) são usadas sem o artigo para salientar a qualidade – coisas como a cruz e a vergonha, e assim servem para colocar em maior relevo a profundidade da abnegação de Cristo. Jesus, sendo santo em si mesmo, foi intensamente sensível à vergonha da cruz, morrendo aos olhos da Lei como um criminoso, mas não permitiu que isso fizesse vacilar Sua lealdade à vontade do Pai.

H. Orton Wiley, A Excelência da Nova Aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus, pp. 509, 510

Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi. Is 55.3

Jo 3.1-16

Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Jo 5.25

E não quereis vir a mim para terdes vida. Jo 5.40

Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. Jo 20.31

Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Rm 5.18

Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas. Cl 2.12, 13

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