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William Lane Craig - Doutrina da Salvação - Parte 3 - Arminianismo

Douglas Wilson X Jack Cottrell - A Soberania, o Controle e os Decretos de Deus

A Soberania, o Controle e os Decretos de Deus
 
Douglas Wilson & Jack Cottrell
 
O livro de Romanos, entre outras partes da Escritura, nos ensina muito sobre as bênçãos do controle soberano de Deus, mas os cristãos muitas vezes têm discordado em aspectos importantes sobre este tema bíblico central.
 
No seguinte diálogo, o editor da Credenda/Agenda, Douglas Wilson e Jack Cottrell, Professor de Teologia no Cincinnati Bible Seminary, discutem a questão da soberania de Deus. Jack Cottrell, Ph.D. Princeton Seminary, M.Div Westminster Theological Seminary, escreveu numerosos livros e artigos, incluindo discussões da soberania de Deus em seu livro sobre a providência, What the Bible Says About God the Ruler (College Press, 1985), e em Grace Unlimited e The Grace of God, The Will of Man (ambos editados por Clark Pinnock). Atualmente o Dr. Cottrell está escrevendo um comentário sobre o livro de Romanos.
 
Douglas Wilson aborda os pontos de debate da soberania de Deus de uma perspectiva reformada tradicional, e Jack Cottrell de uma perspectiva arminiana tradicional. Cada um diria que almeja apenas ser fiel à Escritura.
 
Douglas Wilson: Todos os cristãos reconhecem que Deus é soberano; todos gostamos muito do termo. Certamente nenhum cristão jamais iria querer afirmar que Deus não é soberano. Mas o que isto significa? Os cristãos também concordam que o conceito envolve exatamente o que a Bíblia diz. Mas isto apenas coloca a questão um passo atrás. O que exatamente a Bíblia diz sobre o assunto? Para começar nossa discussão, eu gostaria de propor que há dois aspectos da soberania divina exigidos pela Escritura. O primeiro é que os decretos soberanos de Deus não são limitados por nada fora dele mesmo. O segundo é que Seus decretos são eficazes; eles cumprem exatamente o que Deus pretendeu no decreto.
 
Jack Cottrell: Exato, os decretos soberanos de Deus não são limitados por nada fora dele mesmo e são eficazes. Mas todas as obras de Deus não são decretos (Sua vontade decretiva). Pelo seu decreto ilimitado e eficaz de criar, Deus originou um universo que inclui pessoas com livre-arbítrio e forças impessoais (leis naturais), ambas as quais Ele permite agir dentro dos limites de Seu controle soberano. Ele mantém este controle mediante Sua onisciência (especialmente o pré-conhecimento) e onipotência, através da qual Ele pode impedir qualquer evento potencial que Ele dessa forma escolhe, ou permite que venha a acontecer (Sua vontade permissiva). A medida máxima da soberania de Deus é este controle soberano sobre Sua criação, não Sua causação de todo evento dentro dela por meio de decretos eficazes.
 
Douglas Wilson: Você diz que Deus permite o livre-arbítrio e a lei natural dentro dos limites do controle soberano de Deus. Mas quão frouxos são esses limites? Deus é como um pai que leva os filhos para brincar contanto que eles “permaneçam no quintal”? Ou Ele, através de Seu pré-conhecimento e onipotência, controla todos os movimentos das crianças no quintal? Se o primeiro, seria realmente adequado referirmos a isto como “controle absoluto”? Coisas indesejadas podem acontecer dentro do quintal. Mas se o último, então nosso debate não tem se transformado numa discussão reformada interna sobre o mecanismo de controle? Afinal de contas, qual é a diferença substancial entre causação e controle?
 
Jack Cottrell: A primeira analogia do quintal é deística e inaceitável. A segunda é melhor, mas “controle” é ambíguo. Dentro de um decreto eficaz, abrangente, Deus “controla” todos os movimentos planejando-os e causando-os. Esta conotação é inaceitável. Antes, Deus “controla” todas as coisas no sentido que Ele está no controle delas. Deus causa algumas coisas, para infalivelmente cumprir Seus propósitos. Mas na maioria dos casos Ele respeita a integridade de Sua própria escolha de criar criaturas com livre-arbítrio permitindo-os efetuarem até mesmo “coisas indesejadas” (Mt 23.37; 2Pe 3.9). Todavia, Ele ainda está no controle, visto que Ele pode soberanamente impedir um ato pretendido sempre que desejar (Lc 12.19-20; Tg 4.13-15). Esta diferença é realmente substancial.
 
Douglas Wilson: Ambos concordamos que Deus permite certas “coisas indesejadas” (Ef 4.30). Mas isto significa que também concordamos que Deus deseja permitir estas coisas indesejadas. Neste caso, estas coisas permitidas claramente não são coisas que Ele absolutamente não as desejou. Se Deus conhece todas as coisas que resultarão se Ele criar, e subseqüentemente cria, então este ato de criação revela uma decisão de que toda resultante ou eventos dependentes irão acontecer (Ef 1.11). Para ilustrar, se Ele decide que o avião cairá, então esta é também uma decisão de que os passageiros também irão cair. Discordamos apenas quanto a se chamamos isto um decreto. Mas seja qual for o nome que damos, Sua decisão soberana de criar predetermina tudo o que segue dela (Mt 10.29).
 
Jack Cottrell: O que você diz é verdadeiro somente se o pré-conhecimento total de Deus deste mundo específico precedeu Sua decisão de criá-lo. Entretanto, eu afirmo o oposto: a decisão de Deus de criar este mundo específico de seres com livre-arbítrio precedeu Seu pré-conhecimento dele (se lógica ou cronologicamente é irrelevante). Seu pré-conhecimento da história universal é real, mas é o resultado de Seu decreto de criar este universo específico. Desta forma, as escolhas humanas são verdadeiramente livres, embora Deus as conheça de antemão; mas isto não significa que Ele deseja cada escolha específica. O que Ele deseja é seres com livre-arbítrio, mesmo com o risco de que eles escolham o oposto de Seu desejo e plano para eles.
 
Douglas Wilson: Se o decreto de Deus foi de alguma forma anterior ao Seu pré-conhecimento, então Seu decreto foi cego – mas ainda assim um decreto determinativo. Se for afirmado que Deus determinou criar este universo específico antes que Ele soubesse de alguma maneira o que aconteceria nele, então a resposta bíblica deve ser que isto é inteiramente inconsistente com o que a Escritura ensina sobre Sua santidade, justiça e sabedoria. Tendo cegamente determinado criar, segue que Deus poderia não desejar toda escolha específica que fazemos. É possível que Ele pudesse não desejar alguma escolha específica? Quando Deus abriu Seus olhos depois de Seu inalterável decreto de criar, Ele disse, “Ó, não!”? Isto é determinismo cego cristão?
 
Jack Cottrell: O decreto de Deus foi determinativo com referência à Sua decisão de criar um universo governado por leis naturais e que inclui pessoas com livre-arbítrio. Isto dificilmente é determinismo, que significaria que todo evento foi predeterminado por Deus. Nem tal decreto é cego considerando os eventos contingentes que resultariam destas leis e vontades, visto que em Sua onisciência Deus conhecia de antemão todas as possíveis combinações dessas contingências. Deste modo Ele não foi pego de surpresa quando Seu pré-conhecimento Lhe mostrava o que de fato iria acontecer. Além disso, Ele pré-planejou o processo de redenção através de Cristo para lidar com a pior contingência se necessário. Este entendimento magnifica, antes que nega, a santidade, justiça e sabedoria divinas.
 
Douglas Wilson: Em outras palavras, você está dizendo que Deus considerou todos os universos possíveis com leis naturais e livre-arbítrio, digamos de A a Z. Tendo providenciado redes de segurança, Ele então fechou Seus olhos, e quando estava suficientemente escuro, Ele predeterminou aquele que aconteceria (digamos, M). Mas isto significa que a diferença entre nós não é se Deus predeterminou o universo, mas, antes, se Ele sabia o que estava fazendo quando o predeterminou. Me parece que este arranjo de universos possíveis, dos quais Deus aleatoriamente selecionou um, é um modelo bem distante das claras afirmações da Escritura. Servimos aquele “que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade...” (Ef 1.11).
 
Jack Cottrell: Você está determinado a ver determinismo mesmo onde não existe. Em primeiro lugar, não confunda minha concepção com aquela denominada “conhecimento médio.” Embora Deus saiba todos os universos possíveis que poderia suceder de Sua decisão inicial de criar criaturas com livre-arbítrio, o universo que na verdade se desenvolve não é pré-selecionado (predeterminado) por Ele. A partir de Sua decisão de criar, Ele simplesmente pré-conhece aquele que irá se desenvolver, e trabalha Seus próprios propósitos salvadores dentro, através e fora dele. Em segundo lugar, Ef 1.11 não significa que Deus é a causa originadora (predeterminativa) de todo evento específico; antes, através de Seu pré-conhecimento e poder soberano Ele adapta todas as coisas em Seu propósito último para a criação (cf. Rm 8.28).
 
Douglas Wilson: Estou entendendo que você não está afirmando que Deus escolheu o universo M, sabendo na época que seria o universo M. Você está afirmando que Deus criou o universo M, não tendo certeza de que Sua ação resultaria no universo M. Como um jogador com grandes dados, Ele não sabia o que aconteceria – mas Ele sabia quais eram as possibilidades. Mas ainda tem que ser mostrado como a ignorância dos detalhes futuros de Sua parte preserva o ato criador de ser predeterminativo. Não obstante Sua ignorância, ainda é o lance do jogador que determina o resultado. Ao criar, Deus determinou o universo que existe; estamos discutindo se Ele o criou cega ou inteligentemente.
 
Jack Cottrell: A analogia dos dados é falsa, considerando que os dados são passivos e inertes e recebem todo seu movimento daquele que os arremessa. Criaturas com livre-arbítrio, entretanto, são seres pessoais que são capazes de criar suas próprias escolhas. O Criador certamente busca influenciar estas escolhas, mas Ele não as predetermina de alguma forma. Uma analogia mais próxima seria um casal que arrisca “criar” um filho. Uma vez feito, eles o influenciam tanto quanto podem, mas o filho no final das contas escolhe por si mesmo. Como com os pais, a decisão de Deus de criar seres com livre-arbítrio exigiu um risco. Mas Deus imediatamente pré-conheceu sua conseqüência, e de antemão planejou como tecer os fios de Seu propósito redentor dentro da tapeçaria das decisões humanas pré-conhecidas.
 
Douglas Wilson: Se a analogia dos dados é falsa por tais razões, então o que podemos dizer da analogia bíblica do Oleiro e os vasos (Is 29.16; Jr 18.4-6)? Barro é passivo também. Sua analogia de possíveis pais “se arriscando” na verdade não faz jus ao caso. A fim de adequar seus atos anteriores, os pais teriam que determinar a quantidade de todas as crianças possíveis, determinar tudo que eles fariam com cada criança possível, determinar tudo que eles fariam para cada combinação possível de escolhas feitas por cada criança, conceber uma criança cegamente, e imediatamente saber o destino final daquela criança. Isto corresponde ao caso, mas também ilustra como Deus na criação predetermina “tudo que acontece.”
 
Jack Cottrell: Não se justifica pressionar minha analogia além do ponto único de risco. Sua penúltima sentença obviamente não se aplica aos pais, embora ela convenientemente resume o que eu tenho dito sobre Deus. Entretanto, sua última sentença não segue da precedente. As escolhas de uma criatura são suas. Deus não as predetermina; Ele reage a elas. A analogia do barro ilustra o Senhorio absoluto de Deus como Criador, e Seu soberano controle sobre povos e nações até mesmo quando eles consciente e ativamente se rebelam contra Ele (como em Is 29.16; 45.9; Rm 9.1-20). Seu ponto principal é mostrar o direito e capacidade de Deus de escolher, usar e rejeitar Israel coletivamente, como uma nação, de acordo com Sua vontade e propósito.
 
Douglas Wilson: Você admitiu anteriormente que o “pré-conhecimento de Deus é o resultado de Seu decreto de criar este universo específico.” Nós então concordamos que Deus criou este universo específico. Isto significa que os subconjuntos deste universo específico foram criados por Deus. Deus não criaria dez maçãs sem criar a terceira. Assim, este universo específico é a soma de suas partes, incluindo nossas escolhas livres. Uma escolha livre acontecendo de outra forma significaria um outro universo específico. Ao criar este universo, Deus criou as escolhas que ele contém. Cegamente ou não, Ele o criou, e não nós mesmos. Concordamos que o determinismo implica que todo evento é predeterminado. Você ainda não explicou porque isto exclui sua posição.
 
Jack Cottrell: Pelo contrário, eu expliquei repetidas vezes, usando palavras simples. Sim, o determinismo implica que todo evento é predeterminado. Sim, Deus criou este universo específico. Mas “este universo específico” inclui criaturas com vontade genuinamente livres. Dessa forma alguns “subconjuntos” deste universo específico (isto é, eventos que resultam de escolhas livres) não são criados por Deus, mas num sentido real são criados pelas próprias criaturas. Dessa forma, todo evento neste universo específico não é predeterminado. Depois que Deus criou este universo específico, ele poderia ter se desenvolvido de incontáveis maneiras, dependendo das escolhas feitas pelas criaturas livres. Lamento que esta conversa não passou da fase das definições, mas enquanto você insistiu em me rotular de determinista, não tivemos nada substancial a discutir.
 
Douglas Wilson: Eu na verdade não compartilho de seu lamento; muitos assuntos debatidos, este inclusive, necessitam de muito trabalho na fase de definições. Você diz que depois que Deus criou este “universo específico, ele poderia ter se desenvolvido de incontáveis maneiras.” Mas eu achei que tínhamos concordado que ele poderia somente se desenvolver de uma maneira, conforme visto em Seu pré-conhecimento. Você concordou que depois que Deus cria, então Ele pré-conhece num tempo em que Ele era o único agente. Se o futuro não foi estabelecido, ele não poderia ser pré-conhecido. Se pré-conhecido, então ele foi estabelecido por Deus.
 
Finalmente, deixe-me dizer que foi um grande privilégio debater com um cristão gentil como você. Obrigado.
 
Tradução: Paulo Cesar Antunes

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Perguntas Respondidas

 

A pergunta surge naturalmente: se Cristo morreu por todos, por que todos não são salvos? A resposta está no simples fato de que cada um deve crer que Cristo morreu por ele antes de poder participar dos benefícios de sua morte. Em João 8.24 Jesus disse: “Porque se não crerdes que eu sou, morrereis nos vossos pecados.” Lewis Sperry Chafer declara: “A condição indicada por Cristo, sobre a qual eles (os incrédulos) podem evitar morrer nos seus pecados, não se baseia no fato de ele não morrer a seu favor, mas sim em colocarem nele a sua fé... o valor da morte de Cristo, por mais maravilhosa e completa que seja, não se aplica aos não regenerados até que venham a crer.” [Lewis Sperry Chafer, Systematic Theology (Teologia Sistemática), Dallas, TX: Dallas Seminary Press, 1947, v. III, p. 97] Esta questão de necessidade é uma aplicação pessoal, pela fé, da graça salvadora de Jesus Cristo, como ilustrado pelos detalhes da noite da páscoa. A família israelita deveria matar um cordeiro e aspergir o sangue sobre as ombreiras e a verga das portas de suas casas e os moradores deveriam então permanecer nelas. Deus disse: “O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes: quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito” (Êx 12.13). Deus não olharia no quintal onde o cordeiro fora morto, mas nas portas de cada casa. Quando visse ali o sangue, o anjo da morte não pararia. Deve haver uma aplicação pessoal, pela fé, do sangue precioso que foi derramado por nós no Calvário.

William Evans resume o assunto admiravelmente quando diz:

“A expiação é suficiente para todos; ela é eficiente para aqueles que creem em Cristo. A expiação propriamente dita, à medida que coloca a base para o trato redentor de Deus com os homens, é ilimitada; a aplicação da expiação é limitada àqueles que creem verdadeiramente em Cristo. Ele é o salvador em potencial de todos os homens; mas efetivamente só dos crentes. ‘Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, salvador de todos os homens, especialmente dos fieis’ (1Tm 4.10).”

Fonte: Guy P. Duffield & Nathaniel M. Van Cleave, Fundamentos da Teologia Pentecostal, Vol. 1, pp. 258-260

 

Uma doutrina arminiana crucial é a graça preveniente, na qual os calvinistas também acreditam, mas os arminianos a interpretam diferentemente. A graça preveniente é simplesmente aquela graça de Deus que convence, chama, ilumina e capacita, e que precede a conversão e torna o arrependimento e a fé possíveis. Os calvinistas a interpretam como irresistível e eficaz; a pessoa em quem ela opera irá crer e arrepender-se para salvação. Os arminianos a interpretam como resistível; as pessoas são sempre capazes de resistir à graça de Deus, como a Escritura chama a atenção (At 7.51). Mas sem a graça preveniente, elas inevitavelmente e inexoravelmente resistirão à vontade de Deus por causa de sua escravidão ao pecado.

Quando falamos de “graça preveniente” estamos pensando na que “precede”, que prepara a alma para a sua entrada no estado inicial da salvação. É a graça preparatória do Espírito Santo exercida para o homem enfraquecido pelo pecado. Pelo que se refere aos impotentes, é tida como força capacitadora. É aquela manifestação da influência divina que precede a vida de regeneração completa.

Em um sentido, então, os arminianos, como os calvinistas, creem que a regeneração precede a conversão; o arrependimento e a fé são somente possíveis porque a velha natureza está sendo dominada pelo Espírito de Deus. A pessoa que recebe a total intensidade da graça preveniente (isto é, através da proclamação da Palavra e a chamada interna correspondente de Deus) não mais está morta em delitos e pecados. Entretanto, tal pessoa não está ainda completamente regenerada. A ponte entre a regeneração parcial pela graça preveniente e a completa regeneração pelo Espírito Santo é a conversão, que inclui arrependimento e fé. Estes se tornam possíveis por dádiva de Deus, mas são livres respostas da parte do indivíduo. “O Espírito opera com o concurso humano e por meio dele. Nesta cooperação, contudo, dá-se sempre à graça divina preeminência especial.”

A ênfase sobre a antecedência e preeminência da graça forma o denominador comum entre o Arminianismo e o Calvinismo. É o que torna o sinergismo arminiano “evangélico.” Os arminianos levam extremamente a sério a ênfase neotestamentária na salvação como um dom da graça que não pode ser merecido (Ef 2.8). Entretanto, as teologias arminianas e calvinistas – como todos os sinergismos e monergismos – divergem sobre o papel que os humanos desempenham na salvação. Como Wiley observa, a graça preveniente não interfere na liberdade da vontade. Ela não dobra a vontade ou torna certa a resposta da vontade. Ela somente capacita a vontade a fazer a escolha livre para cooperar ou resistir à graça. Essa cooperação não contribui para a salvação, como se Deus fizesse uma parte e os humanos fizessem outra parte. Antes, a cooperação com a graça na teologia arminiana é simplesmente não-resistência à graça. É meramente decidir permitir a graça fazer sua obra renunciando a todas as tentativas de auto-justificação e auto-purificação e admitindo que somente Cristo pode salvar. Todavia, Deus não toma esta decisão pelo indivíduo; é uma decisão que os indivíduos, sob a pressão da graça preveniente, devem tormar por si mesmos.

Fonte: Roger E. Olson, Arminian Theology: Myths and Realities, p. 35-36

A morte de Cristo por todos os homens pode ser concluída de diversas passagens das Escrituras:

1 – Daquelas que dizem que ele morreu por “todo homem”, por “todos os homens”, por “todos”, pelo “mundo”, por “todo o mundo”:

Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. [2Co 5.14-15]

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. [1Tm 2.5-6]

Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. [Hb 2.9]

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. [1Jo 2.2]

2 – Daquelas que dizem que Deus em Cristo reconciliou o mundo:

Pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. [2Co 5.19]

3 – Daquelas que dizem que Cristo daria sua vida pelo mundo:

Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. [Jo 6.51]

4 – Daquelas que dizem que a graça veio sobre todos os homens:

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. [Rm 3.23-24]

Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida. [Rm 5.18]

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens. [Tt 2.11]

5 – Daquelas que dizem que Deus deseja a salvação de todos os homens:

Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? [Ez 33.11]

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. [1Tm 2.3-4]

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. [2Pe 3.9]

6 – Daquelas que dizem que o Evangelho deve ser pregado a todos os homens:

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. [Mc 16.15-16]

E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém. [Lc 24.46-47]

Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam. [At 17.30]

7 – Daquelas que dizem que Jesus veio salvar os perdidos:

Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. [Lc 19.10]

8 – Daquelas que dizem que Jesus é o Salvador do mundo ou de todos os homens:

E diziam à mulher: Já não é pela tua palavra que nós cremos; pois agora nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo. [Jo 4.42]

Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem. [1Tm 4.10]

E nós temos visto, e testificamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo. [1Jo 4.14]

9 – Daquelas que dizem que Jesus veio salvar o mundo:

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. [Jo 1.29]

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. [Jo 3.16-17]

E, se alguém ouvir as minhas palavras, e não as guardar, eu não o julgo; pois eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. [Jo 12.47]

Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, no apartar, a cada um de vós, das vossas maldades. [At 3.26]

10 – Daquelas que dizem que Jesus se entregou por aqueles que o rejeitam:

Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. [Jo 6.32-33]

11 – Daquelas que dizem que Jesus morreu pelos judeus:

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. [Is 53.6]

Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. [Jo 11:51]

12 – Daquelas que dizem que Jesus morreu pelos ímpios ou veio salvá-los:

Pois, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios. [Rm 5.6]

Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. [1Tm 1:15]

13 – Daquelas que dizem que Jesus morreu por aqueles que se perdem ou que correm risco de se perderem:

Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. [Rm 14.15]

Pela tua ciência, pois, perece aquele que é fraco, o teu irmão por quem Cristo morreu. [1Co 8.11]

De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça? [Hb 10:29]

Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. [2Pe 2.1]

Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí. Jr 31.3

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Mt 23.37

Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. Lc 19.10

Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Jo 1.9

Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Jo 6.44

E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Jo 12.32

Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. At 7.51

E uma certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus, nos ouvia, e o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia. At 16.14

E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação; para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós. At 17.26, 27

Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Rm 2.4

De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Rm 10.17

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Ef 2.8

Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade. Fp 2.13

Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; e que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho. 2Tm 1.9, 10

Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens. Tt 2.11

Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. Ap 3.20

 

Jacó Armínio e a controvérsia dos remonstrantes

A Holanda na qual Jacó Armínio nasceu e foi criado estava lutando contra a tradição católica romana e contra o domínio da Espanha católica. Um pequeno grupo de rebeldes uniu várias províncias contra o domínio espanhol e estabeleceu uma aliança instável conhecida como Províncias Unidas (dos Países Baixos). A Holanda era a maior e a mais influente das províncias. Ao mesmo tempo em que os holandeses se libertaram da Espanha, estabeleceram sua igreja nacional protestante. A igreja reformada de Amsterdã foi fundada em 1566 e seus principais ministros e leigos mantiveram os três princípios protestantes fundamentais, sem se aliarem a nenhum ramo específico do protestantismo. O protestantismo holandês primitivo era um tipo sui generis que não seguia rigidamente o luteranismo ou o calvinismo.

Armínio foi criado como protestante na cidadezinha de Oudewater, entre Utrecht e Roterdã, mas sua formação cristã na juventude não foi pesadamente calvinista. Aos quinze anos de idade, foi enviado a Marburgo, na Alemanha, para obter sua educação. Enquanto estava lá, sua cidade natal foi invadida por soldados católicos leais à Espanha e muitos habitantes foram massacrados. A família inteira de Armínio foi exterminada em um único dia. O jovem estudante ficou sob os cuidados de um respeitado ministro holandês de Amsterdã e acabou se tornando um dos primeiros alunos a se matricular na recém-estabelecida universidade protestante de Leiden. A igreja reformada de Amsterdã considerava Armínio um dos jovens candidatos mais promissores ao ministério e por isso custeou seu estudo superior em Leiden e, depois, na Suíça. Lá, estudou por algum tempo na “Meca” da teologia reformada, a Academia de Genebra, dirigida por Beza.

Em 1588, Armínio iniciou o ministério na igreja reformada de Amsterdã, aos 29 anos de idade. Todos os relatos contam que seu pastorado foi ilustre. Conforme observa certo biógrafo: “Armínio se tornou o primeiro pastor holandês da igreja reformada holandesa da maior cidade da Holanda, exatamente quando ela estava emergindo de seu passado medieval e irrompendo na Idade de Ouro”. Era notadamente benquisto e respeitado, tanto como pastor quanto como pregador, e rapidamente se tornou um dos homens mais influentes de toda a Holanda. Casou-se com a filha de um dos principais cidadãos de Amsterdã e entrou para o grupo dos privilegiados e poderosos. Nem por isso demonstrou qualquer indício de arrogância ou ambição. Nem sequer seus críticos ousaram acusá-lo de abusar de seu cargo pastoral ou de qualquer outra falha pessoal ou espiritual. Acabaram acusando-no de heresia somente porque, como pastor de uma das igrejas mais influentes da Holanda, começou a criticar abertamente o supralapsarismo que entrou em ascensão conforme cada vez mais ministros holandeses retornaram de seus estudos em Genebra sob a direção de Beza. Armínio era da “escola amiga” do protestantismo holandês de mentalidade independente, que se recusava a declarar como ortodoxo qualquer ramo específico da teologia protestante. Alguns, no entanto, insistiam cada vez mais que o supralapsarismo era a única teologia protestante ortodoxa e que qualquer outra opinião significava, de alguma forma, uma acomodação à teologia católica romana e, portanto, era uma aliada em potencial da Espanha, inimiga política dos Países Baixos.

Na década de 1590, o conflito entre Armínio e os calvinistas rígidos da Holanda se tornou cada vez pior. Alguns estudiosos sugerem que Armínio mudou de opinião nesse período. Acreditam que tinha sido um “hipercalvinista” ou mesmo um supralapsário. Essa suposição parece ter se fundamentado simplesmente no fato de ele ter sido aluno de Beza. O principal intérprete moderno de Armínio contradiz a ideia da alegada mudança de opinião de Armínio: “Todas as evidências levam a uma só conclusão: Armínio não concordava com a doutrina de Beza sobre a predestinação, quando assumiu o seu ministério em Amsterdã; na realidade, é provável que nunca tenha concordado com ela”. Na série de sermões sobre a Epístola de Paulo aos romanos, o jovem pregador começou a negar abertamente não somente o supralapsarismo, mas também a eleição incondicional e a graça irresistível. Interpretou Romanos 9, por exemplo, como uma referência não a indivíduos, mas a classes – crentes e incrédulos – conforme predestinadas por Deus. Afirmou que o livre-arbítrio dos indivíduos os incluía nas classes de “eleitos” e de “réprobos” e explicou a predestinação como a presciência divina acerca da livre escolha dos indivíduos. Para apoiar essa ideia, Armínio apelou a Romanos 8.29. Conforme observa o biógrafo e intérprete de Armínio, Carl Bangs, o teólogo holandês demonstrou, em seus sermões da década de 1590, o desejo de encontrar o equilíbrio entre a graça soberana e o livre-arbítrio humano: “o objetivo era uma teologia da graça, que não deixasse o homem ‘entre a cruz e o punhal’”.

Os rígidos oponentes calvinistas de Armínio em Amsterdã e outros lugares não tardaram em farejar o pavoroso erro de sinergismo em sua pregação e ensino e, publicamente, acusaram-no de heresia para os oficiais da igreja e da cidade, que examinaram a questão e inocentaram Armínio das acusações. Armínio apelou à tradição protestante holandesa da independência dos sistemas teológicos específicos e à tolerância de diversidade nos pormenores da doutrina. Os oficiais concordaram. Os oponentes supralapsários de Armínio ressentiram-se e decidiram que o arruinariam de qualquer maneira. Sofreram uma derrota fragorosa quando Armínio foi nomeado para ocupar a prestigiosa cátedra de teologia na Universidade de Leiden em 1603. O outro catedrático de teologia daquele período era Francisco Gomaro, que talvez tenha sido o calvinista supralapsário mais franco e rígido de toda a Europa. Gomaro, além de considerar todas as outras opiniões, inclusive o infralapsarismo, falhas ou até heréticas, “tinha, segundo quase todos os relatos a seu respeito, um temperamento extremamente irascível”.

Quase que imediatamente, Gomaro iniciou uma campanha de acusações contra Armínio. Algumas delas eram verídicas. Por exemplo, Armínio não escondia a rejeição não somente do supralapsarismo, mas também da doutrina clássica calvinista da predestinação como um todo. Gomaro distorceu esse fato e, publicamente e por trás das costas de Armínio, insinuou que ele era um simpatizante secreto dos jesuítas – uma ordem de sacerdotes católicos romanos especialmente temida que era chamada “tropa de choque da Contra-Reforma”. Essa alegação de Gomaro, assim como outras, era claramente falsa. Por exemplo, Gomaro acusou Armínio de socinianismo, que era uma negação da Trindade e de quase todas as demais doutrinas cristãs clássicas. Não importa o que Armínio escrevesse ou dissesse em sua defesa, via-se constantemente atacado por boatos e sob suspeita. “Quando a controvérsia ultrapassou os limites das salas acadêmicas e chegou aos púlpitos e às ruas, suas defesas perderam o efeito. Era mais fácil chegar à conclusão de que ‘onde há fumaça, há fogo’”. A controvérsia cresceu a ponto de provocar uma guerra civil entre as províncias dos Países Baixos. Algumas apoiavam Armínio, outras apoiavam Gomaro. O conflito eclodiu em 1604, quando Gomaro, pela primeira vez, acusou Armínio abertamente de heresia e durou até a morte de Armínio por causa de tuberculose em 1609. Quando morreu, sua teologia estava sob a inquisição pública de líderes religiosos e políticos. Em seu enterro, um de seus amigos mais íntimos fez o discurso fúnebre diante do corpo de Armínio: “Viveu na Holanda um homem que só não era conhecido por quem não o estimava suficientemente e só não o estimava quem não o conhecia suficientemente”.

Depois da morte de Armínio, quarenta e seis ministros e leigos holandeses respeitados redigiram um documento chamado “Remonstrância” que resumia a rejeição, por Armínio e por eles mesmos, do calvinismo rígido em cinco pontos. Graças ao título do documento, os arminianos passaram a ser chamados de remonstrantes. Entre eles, estavam os estadistas e líderes políticos holandeses que tinham ajudado a libertar os Países Baixos da Espanha. Seus inimigos acusavam-nos de apoiar secretamente os jesuítas e a teologia católica romana, e de simpatizar com a Espanha, só porque concordavam com a oposição de Armínio a respeito das doutrinas da predestinação! Não existe nenhuma evidência de que qualquer um deles realmente tivesse alguma culpa em relação às acusações políticas feitas contra eles. Mesmo assim, ocorreram tumultos em várias cidades holandesas, nos quais foram pregados sermões contra os remonstrantes e distribuídos panfletos que os difamavam como hereges e traidores. Finalmente, o grande poder político dos Países Baixos, o príncipe Maurício de Nassau, entrou na luta em favor dos calvinistas. Em 1618, ordenou a detenção e o encarceramento dos principais arminianos, para aguardar o resultado do sínodo nacional de teólogos e pregadores. O Sínodo de Dort entrou em sessão em novembro de 1618 e foi encerrado em janeiro de 1619, contando com a presença de mais de cem delegados, inclusive alguns da Inglaterra, da Escócia, da França e da Suíça. “João Bogerman, um pregador calvinista com opiniões extremadas, que havia defendido em um documento a pena de morte por heresia, foi escolhido como presidente”.

Como esperado, a despeito das eloquentes defesas do arminianismo feitas pelos principais remonstrantes, na conclusão do sínodo, todos os líderes remonstrantes foram condenados como hereges. Pelo menos duzentos foram depostos do ministério da igreja e do estado e cerca de oitenta foram exilados ou presos. Um deles, o presbítero, estadista e filósofo Hugo Grotius (1583-1645), foi confinado em uma masmorra da qual posteriormente escapou. Outro estadista foi publicamente decapitado. Um historiador moderno da controvérsia concluiu que “o modo de [o príncipe] Maurício tratar os estadistas arminianos só pode ser considerado um dos grandes crimes da História”.

O Sínodo de Dort promulgou um conjunto de doutrinas padronizadas para a igreja reformada holandesa, que se tornou a base do acrônimo TULIP. Cada cânon, conforme eram chamadas as doutrinas, baseava-se em um dos cinco pontos da “Remonstrância”. As coisas que os arminianos negavam, Dort canonizou como doutrina oficial, obrigatória para todos os crentes protestantes reformados. Não arbitrou, no entanto, sobre o supralapsarismo e o infralapsarismo e, desde então, as duas teorias continuaram dentro do consenso calvinista expresso pelo Sínodo de Dort. Após a morte do príncipe Maurício em 1625, o arminianismo gradualmente voltou a fazer parte da vida holandesa. Já em 1634, muitos exilados voltaram e organizaram a Fraternidade Remonstrante, que cresceu e formou a Igreja Reformada Remonstrante, que ainda existe. Não foi nos Países Baixos, no entanto, que a teologia arminiana causou maior impacto. Isso aconteceu na Inglaterra e na América do Norte pela influência de destacados ministros anglicanos, batistas gerais, metodistas e ministros de outras seitas e denominações que surgiram nos séculos XVII e XVIII. João Wesley (1703-1791) tornou-se o arminiano mais influente de todos os tempos. Seu movimento metodista adotou o arminianismo como teologia oficial e, através dele, tornou-se parte da tendência prevalecente na vida protestante da Grã-Bretanha e da América do Norte.

Fonte: Roger E. Olson, História da Teologia Cristã, 471-475

 

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