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Scot McKnight - Os Cinco Paradoxos do Calvinismo

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Publicado em Sexta, 27 Janeiro 2012 15:57
Categoria: Scot McKnight
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Os Cinco Paradoxos do Calvinismo

 

Scot McKnight

 

Roger Olson traça cinco paradoxos – algo entre contradição e mistério – no Calvinismo, e estes paradoxos, Olson pensa, colocam em dúvida o bom nome de Deus. Irei apresentá-los na forma de perguntas.

 

Como Deus pode ter soberania divina absoluta e os seres humanos serem genuinamente responsáveis?

 

Como Deus pode determinar tudo e algo ser mau? Isto é, se tudo é a vontade de Deus, e Deus é bom, tudo é bom ou pelo menos nada é mau. Isto inclui o estupro, o abuso contra crianças e o inferno.

 

Como algo pode diminuir a glória de Deus se Deus deseja tudo? Até mesmo a incredulidade, a heresia e o pecado.

 

Como Deus pode salvar alguns e ignorar outros e ser bom, amoroso e gracioso? [Olson acredita que Deus escolhe na base do preconhecimento.]

 

Como Deus pode ser bom e ordenar as ações más neste mundo?

 

Há explicações não-calvinistas geralmente muito melhores e o apelo calvinista a um paradoxo, ou antinomia, mascara a falta de lógica e falha em lidar com o resposta mais adequada, racional e lógica de outras. O determinismo divino e a providência meticulosa cria mais problemas para o caráter de Deus do que os resolve. A auto-limitação divina e o livre-arbítrio humano são explicações melhores e mais racionais.

 

Fonte: http://www.patheos.com/blogs/jesuscreed/2011/12/26/the-five-conundrums-of-calvinism/

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Jack Cottrell - O Calvinismo e a Bíblia: 6. As Doutrinas da T-U-L-I-P – 2ª Parte

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Publicado em Domingo, 25 Dezembro 2011 16:45
Categoria: Jack Cottrell
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O Calvinismo e a Bíblia: 6. As Doutrinas da T-U-L-I-P – 2ª Parte

 

Jack Cottrell

 

O artigo anterior explicou os “Cinco Pontos do Calvinismo” e respondeu ao primeiro deles, a depravação total. Este último artigo oferece respostas breves aos outros quatro pontos.

 

A segunda doutrina do sistema TULIP do Calvinismo é a eleição incondicional, uma distorção da doutrina bíblica da predestinação. Aqui estão quatro pontos em resposta. Em primeiro lugar, a predestinação é um fato. A predestinação é simplesmente a determinação de Deus antes da criação de fazer uma coisa específica acontecer no curso da história universal. Várias vezes a Bíblia diz que Deus “predestina” alguma coisa, incluindo algumas pessoas para a salvação (Rm 8.29-30; Ef 1.5, 11). Muitas vezes ela diz que Deus “elege” ou “escolhe” pessoas para algum propósito (por exemplo, Jo 15.16; Ef 1.4; 1Pe 1.1).

 

Em segundo lugar, Deus predestina algumas pessoas a irem para o céu. Alguns podem pensar que isto soa como o Calvinismo, mas há uma diferença significativa. O Calvinismo diz que Deus não predetermina apenas o destino final dos seus eleitos (ou seja, o céu), mas também o próprio fato de que algumas pessoas serão “os seus eleitos.” Em outras palavras, ele não determina apenas quais indivíduos irão para o céu, mas também quais indivíduos totalmente depravados irão verdadeiramente se tornar crentes e permanecer crentes para sempre. Os próprios pecadores escolhidos não têm nenhuma influência em sua própria eleição.

 

Alguns não-calvinistas respondem a essa visão negando que a predestinação para a salvação se aplica a indivíduos como tais; eles dizem, na verdade, que ela se aplica apenas a uma classe ou grupo, sem referência a qualquer indivíduo em particular que possa estar no grupo. Como alguns dizem, “Deus predestina o plano, não o homem.”

 

De fato, a igreja do Novo Testamento como um grupo é a “geração eleita” de Deus (1Pe 2.9; veja Cl 3.12), mas isso não significa que a predestinação para a salvação não tem nada a ver com os indivíduos. Essa visão é uma reação exagerada ao Calvinismo e uma distorção do ensino bíblico. A predestinação é, de fato, individual ou pessoal.

 

Quando a Bíblia fala de predestinação para a salvação, ela geralmente se refere a pessoas específicas que são predestinadas, e não a um grupo abstrato ou a um plano impessoal. Em Rm 8.29 Paulo diz que a predestinação é de acordo com o pré-conhecimento de Deus: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou.” Não faz sentido falar de pré-conhecimento a menos que seja de indivíduos. Contudo, Paulo não diz que somos predestinados a nos tornarmos crentes. Ao contrário, ele diz que nós (cuja fé é pré-conhecida) estamos predestinados “para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” Isto se refere à ressurreição dos nossos corpos no último dia, à imagem do corpo glorioso de Cristo (Fp 3.21; Cl 1.18), quando a família de Deus estará completa (cf. Rm 8.12-25).

 

Em terceiro lugar, a predestinação para a salvação é condicional, não incondicional. Esta conclusão também vem do ensino que a predestinação de Deus está baseada em seu pré-conhecimento, ou seja, no seu pré-conhecimento de quem irá e quem não irá satisfazer as suas condições estabelecidas para a salvação (Rm 8.29; 1Pe 1.1-2). Deus não predestina alguns pecadores a se tornarem crentes; ele pré-conhece quais pecadores se tornarão crentes de sua livre escolha, e levando em conta este pré-conhecimento ele os predestina à glória. (Veja o meu comentário de Romanos, sobre 8.29.)

 

Finalmente, nem toda predestinação ou eleição tem a ver com a salvação condicional de indivíduos. Este é um ponto importante, porque a doutrina calvinista da eleição incondicional está amplamente baseada em textos que se referem a algo completamente diferente. Deus escolhe pessoas, como os apóstolos, para papéis de serviço (Jo 15.16). Ele escolhe grupos, tais como a nação de Israel, também para papéis de serviço. Este é o principal ponto de Romanos 9, frequentemente deturpado para ensinar a eleição incondicional. (Veja o meu comentário de Romanos sobre este capítulo).

 

A predestinação de Ef 1.1-14 é diferente de qualquer uma das acima. Aqui Paulo está falando da predestinação de duas categorias diferentes da raça humana, como geralmente era distinguida nos seus dias: os judeus (o “nós” nos versos 11-12) e os gentios (o “vós” no verso 13). Veja Cottrell, God the Ruler (1984:306-309).

 

Minha resposta para a doutrina da expiação limitada é breve. João afirma a expiação ilimitada em 1Jo 2.2, que diz que Cristo é “a propiciação pelos nossos pecados” – os nossos pecados, dos cristãos; “e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” 2Pe 2.1 se refere a “falsos doutores” que estavam negando “o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.” Estes homens realmente se perderam (2Pe 2.12-22), mas Cristo os comprou com seu próprio sangue (veja 1Co 6.20; 1Pe 1.18-19).

 

Porque Jesus era tanto homem quanto Deus infinito, o seu sofrimento na cruz também foi infinito. Ele não sofreu apenas em seu corpo humano e finito, mas também em sua natureza divina; portanto o seu sofrimento não tinha limite. É errado pensar que o seu sofrimento infinito poderia ser quantificado de alguma forma e, dessa forma, destinado a apenas um número limitado de pessoas.

 

A quarta doutrina TULIP é a graça irresistível. Como vimos, a doutrina da depravação total significa que todas as pessoas não salvas são totalmente incapazes de responder ao evangelho em fé e arrependimento. Portanto, se alguém será salvo, o próprio Deus deve decidir quem será e então agir diretamente sobre os corações desses escolhidos para capacitá-los a crer. Este último é a obra irresistível do Espírito Santo da regeneração. Como consequência, o pecador imediatamente começa a crer em Jesus Cristo. Que a regeneração precede a fé e a concede como um dom é uma característica do Calvinismo.

 

Na Bíblia, o Espírito regenera operando tanto indiretamente quanto diretamente sobre o coração do pecador. Ele opera indiretamente através da Palavra de Deus, influenciando os pecadores a crer e se arrepender. Alguns que ouvem escolhem crer e se arrepender, e alguns preferem não fazê-lo. Somente depois que alguém tenha escolhido crer e se arrepender é que o Espírito Santo opera diretamente sobre o seu coração para efetuar a regeneração.

 

Mas Jesus não diz, “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (Jo 6.44)? É verdade, mas ao contrário do Calvinismo esse atrair é universal e resistível, e não seletivo e irresistível. Todos são atraídos a Jesus pelo poder do evangelho (Rm 1.16; 10.17; 2Ts 2.14; Hb 4.12), mas somente alguns respondem (Mt 23.37). Esse atrair é universal: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (Jo 12.32). Negar que a Palavra atrai todos os pecadores é negar o próprio propósito e caráter da palavra escrita. João diz que seus registros da vida e milagres de Jesus “foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Isto não pode ter sido escrito em vão.

 

Mas o Novo Testamento não ensina que a fé e o arrependimento são dons de Deus, o que implica a incapacidade do pecador de crer e se arrepender? É verdade, At 5.31 e At 11.18 dizem que Deus concedeu arrependimento a Israel e aos gentios, mas isso significa que ele está concedendo a esses grupos (não a indivíduos) a oportunidade e o meio para crer e se arrepender ao levar o evangelho até eles. Fp 1.29 e 2Tm 2.25 também se referem a oportunidade. Algumas passagens citadas como prova de que a fé é um dom nem ao menos estão falando da fé salvadora. Rm 12.3 significa que Deus tem repartido (distribuído) a cada cristão um dom espiritual que é adequado à sua própria fé. 1Co 12.9 faz referência à fé de operar milagres como um dom do Espírito (veja 1Co 13.2), e Gl 5.22 faz referência à fidelidade na vida cristã.

 

Alguns erroneamente concluem que Ef 2.8 diz que a fé é um dom: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” Isto é desmentido pelas regras da gramática grega. A palavra grega para “fé” (pistis) é do gênero feminino; o pronome que se refere ao dom (“isso,” touto) é neutro. Se ele estivesse se referindo à fé, ele também seria feminino na forma. (Não há palavra no Grego correspondente ao pronome “impessoal”). O dom é a própria salvação.

 

Que a fé precede a regeneração e é um pré-requisito a ela é especificamente afirmado em Cl 2.12: “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus.” Esta ressurreição é a regeneração (veja o v. 13), e a fé é o meio pelo qual a regeneração é recebida: “ressuscitastes pela fé.” O incrédulo espiritualmente morto toma a sua decisão de crer de sua livre escolha, movido pelo poder do evangelho, antes de ser “ressuscitado” na regeneração. Isto é o oposto do Calvinismo.

 

A última doutrina TULIP é o dom da perseverança, ou “uma vez salvo, sempre salvo.” A refutação desta doutrina fecha um círculo completo em torno do assunto com o qual começamos, ou seja, se os seres humanos têm uma vontade verdadeiramente livre. O sistema calvinista é totalmente dependente da sua negação do livre-arbítrio, uma negação baseada em um conceito distorcido da soberania e também na falsa doutrina da depravação total. A ideia do “uma vez salvo, sempre salvo,” é simplesmente a etapa final e conclusão lógica dessa negação. Se o indivíduo não é livre para aceitar a salvação, ele não é livre para rejeitá-la uma vez que ela tenha sido recebida.

 

Mas se nossas vontades são verdadeiramente livres, somos livres tanto para aceitar a salvação quanto para abandoná-la. Tornar-se salvo é condicional; permanecer salvo é condicional. O Novo Testamento ensina claramente a natureza condicional de permanecer salvo; veja o enfático SE em Jo 15.1-6 (v. 6), Rm 11.17-22 (v. 22), 1Co 15.1-2 e Cl 1.21-23.

 

Gl 5.4 afirma expressamente de certas pessoas que “separados estais de Cristo” e “da graça tendes caído.” Este é claramente um estado de perdição, que foi precedido por um estado de salvação. O mesmo é verdadeiro em 2Pe 2.20-22 e Hb 6.4-8. O livro inteiro de Hebreus é uma farsa se não for possível alguém perder a salvação.

 

Certamente Deus nunca irá nos lançar fora nem permitir que nossos inimigos nos arrebate dele contra a nossa vontade (Jo 10.28-29; Rm 8.35-39). Estamos de fato “guardados na virtude de Deus,” mas somos assim guardados “mediante a fé” (1Pe 1.5). A última é nossa contínua responsabilidade.

 

Para um estudo mais aprofundado, o leitor deve consultar a breve bibliografia que acompanhou o primeiro artigo desta série.

 

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

William Lane Craig - Pergunta 147 - Moralidade Ordenada por Deus e Voluntarismo

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Publicado em Quarta, 14 Dezembro 2011 12:20
Categoria: William Lane Craig
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Pergunta 147

 

Moralidade Ordenada por Deus e Voluntarismo

 

William Lane Craig

 

Caro Dr. Craig,

 

Eu sou ateu. Eu ouvi alguns de seus podcasts, mais especificamente aqueles dois discutindo as atrocidades do Antigo Testamento e o fundamento objetivo da moralidade e percebi uma contradição: Existe de fato uma diferença entre “moralidade ordenada por Deus” (uma teoria que você defendeu em um podcast) e “voluntarismo” (ao qual você se opôs em outro)?

 

No podcast de 3 de Março de 2008, Did God Commit Atrocities? [Deus cometeu atrocidades?], após lançar dúvida sobre a doutrina da inerrância bíblica em relação aos relatos do Antigo Testamento de massacres em massa como estes tendo sido ordenados por Deus (o que pareceria haver ramificações, dado sua forte defesa da confiabilidade de episódios bíblicos como a tumba vazia) você sai em defesa da opção alternativa, ao assumir a validade das histórias de atrocidades, colocando-as, obviamente, em “contexto”.

 

Você emprega o conceito de “moralidade ordenada por Deus”, descrita (grosso modo) como uma teoria ética na qual nossos valores morais são constituídos pelos comandos de Deus: São as ordens de Deus que nos dizem o que é certo e errado, são elas que determinam o que devemos ou não fazer. Se Deus dá a você uma ordem para fazer algo, isto se torna seu valor moral. Na verdade, seria errado a você não obedecer à ordem. Uma vez que Deus não dá ordens a si mesmo, ele não possui obrigações morais para cumprir, na verdade, ele simplesmente age de acordo com sua natureza, que é amor, bondade, compaixão, etc.

 

Você então lava suas mãos sobre os cananeus e suas crianças descartáveis: Deus não está sob nenhuma obrigação de prolongar a vida de ninguém. A vida é um presente de Deus, ele não possui obrigação moral de prolongá-la. Ele pode fazer de sua vida como lhe aprouver. Deus não está sob nenhuma obrigação moral de prolongar a vida destes cananeus, mesmo as crianças. Crianças morrem o tempo todo no mundo por doenças, acidentes e vários tipos de coisas.

 

Eu não estou tão animado assim em atribuir um rosário de belos adjetivos, repetidos em seus podcasts (“amoroso”, “justo”, “bondoso”, “compassivo”) a um ser superior que cometeria tais atos. Eu imagino que os cananeus tinham uma visão diferente sobre o deus hebreu Yahweh.

 

Mas deixando isto de lado, sua abordagem não torna a moralidade de Deus subjetiva?

 

Na visão que você defendeu em seu podcast, moralidade é na verdade simplesmente o que Deus diz que devemos fazer: Em alguns momentos é bom realizar matanças, algumas vezes não. Deus é um relativista moral?

 

No entanto, quatro semanas mais tarde você defende a ideia de que a moralidade é objetivamente fundamentada, em aparente conflito com o conceito da “moralidade ordenada por Deus” (31 de Março de 2008, How Are Morals Objectively Grounded in God? [Como a Objetividade da Moral está Fundamentada em Deus?]). Você defende que os valores morais são definidos por Deus, que ele é o padrão da bondade, e indo mais além, você critica a visão alternativa. Você diz que se os valores morais fossem simplesmente fundamentados na vontade divina, se Deus apenas tivesse dito o que é certo e errado arbitrariamente, então isto seria de fato um ultimado para a subjetividade – “voluntarismo”, como você disse – a visão de que a vontade de Deus apenas decide o que é bom ou mal, certo ou errado.

 

No entanto, não decidiu Deus o que era bom ou mal quando ele ordenou o massacre dos cananeus? O que antes era proibido passou agora a ser obrigatório.

 

Como este “voluntarismo” é diferente da “moralidade ordenada por Deus”?

 

Clay

 

Resposta do Dr. Craig:

 

Estou feliz por ver que você se interessa pelo material do ReasonableFaith.org, Clay, e espero que os materiais daqui levem você a questionar seu ateísmo. Isto não seria alguma coisa, caso Deus de fato exista?

 

O voluntarismo é uma visão, defendida por alguns teólogos, de acordo com a qual os valores morais são baseados inteiramente na vontade soberana de Deus. Não existe explicação a não ser a escolha de Deus sobre os valores morais. Ele arbitrariamente escolhe o que é bom e o que é ruim.

 

A vasta maioria dos pensadores cristãos não tem sido voluntarista. Eu acho que o voluntarismo se sente mais em casa no Islã do que no Cristianismo, porque na concepção islâmica de Deus, seu poder triunfa sobre todas as coisas, até mesmo sobre seu caráter. Em contraste, os teólogos cristãos acreditam que Deus tem algumas virtudes essenciais, como amor, imparcialidade, compaixão, justiça, etc. Estas virtudes são tão essenciais a Deus como são três ângulos a um triângulo.

 

Um dos insights positivos do voluntarismo, em minha opinião, é que os valores que temos surgem em resposta a uma ordem imperativa. Um comando vindo de uma autoridade legítima cria uma obrigação ou uma proibição a nós. Bem e mal sozinhos não são suficientes para o certo e o errado porque “bem” e “mal” não criam obrigações ou proibições. Muitas coisas seriam boas para fazermos, mas isto por si só não implica que nós somos obrigados a fazê-las, porque elas podem ser mutuamente exclusivas e então seriam impossíveis de se fazer. Então o voluntarismo localiza corretamente a fonte de nossos valores morais nos comandos de Deus.

 

O voluntarismo erra quando pensa que estes comandos são totalmente arbitrários. Eles não são arbitrários, mas fundamentados na natureza de um Deus justo e amoroso. Portanto, a maior parte dos teóricos sobre os comandos divinos não são voluntaristas.

 

O difícil para os teístas bíblicos é explicar sobre as ordens de Deus que parecem contradizer a sua natureza, como a ordem ao exército de Israel para exterminar o povo de Canaã.[1] Os teístas bíblicos precisam mostrar como tais ordens podem ser consistentes com a natureza de Deus. Na Questão da Semana #16, eu tentei dar esta explicação. Como eu tentei mostrar lá, Deus não torna ninguém errado ao emitir tal ordem e ele tinha bons motivos para tê-la dado.

 

Se tal defesa falhar, a alternativa será abandonar a historicidade destas histórias (ironicamente, exatamente a posição de muitos críticos do Antigo Testamento, que tomam estas históricas como lendas de Israel) ou então defender que os judeus equivocadamente pensaram que Deus os ordenou a exterminar os cananeus. Seria ingenuidade in excelsis pensar que ao adotar a primeira alternativa estaríamos minando de alguma forma a precisão histórica dos evangelhos do Novo Testamento. Da mesma forma seria minada a credibilidade histórica de Tucídides e Heródoto se alguém reconhecesse o caráter místico da Ilíada de Homero!

 

Você está correto quando diz que os cananeus tinham uma visão muito diferente de Deus do que Israel. Após ter escrito a Questão da Semana #16 eu tive a oportunidade de ler um ensaio emocionante de Clay Jones sobre a cultura, religião e modos dos cananeus em uma versão especial da Philosophia Christi dedicada ao problema que estamos tratando.[2] Eu sabia que as tribos cananéias eram corruptas, mas eu devo dizer que eu não tinha ideia da degradação e da imundice da qual elas descendiam. Como eles viam El, o Deus de Israel? Textos ugaríticos retratam-no como um fraco, usurpado por Baal, e imundo em seus próprios excrementos e urina. Em contraste, no pensamento de Israel sobre o Deus de Abraão, ele não traria julgamento sobre Sodoma se existissem pelo menos dez pessoas corretas em toda cidade. Ele esperou por 400 anos até que as tribos cananéias estivessem tão corruptas a ponto de não poderem escapar de julgamento.

 

Então eu acho que está claro que a visão de Deus que eu defendo não é de moral relativista, nem subjetivista. Deus tinha razões morais suficientes para justificar o que ele ordenou os israelitas a fazerem, razões que não são contrárias à sua natureza. A ordem de Deus para que os israelitas limpassem a terra dos cananeus não foi arbitrária, como se ele estivesse “decidindo o que era bom ou mal”. Esta ordem foi um ato de julgamento pela pecaminosidade do povo, que havia sido adiado por muito tempo.

 

Fonte: http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=7911

 

Tradução: Eliel Vieira



[1] Uma observação: após escrever minha resposta na Questão da Semana #16, eu percebi que a ordem de Deus ao povo de Israel não era para exterminar os cananeus, como muitos pensam. A ordem primeiramente era para retirá-los da terra. O julgamento sobre os reinos cananeus era despojá-los de suas terras e assim destruí-los como reinos. O povo cananeu fugiu antes do avanço do exército de Israel, e não houve ordens para que os israelitas os perseguissem e os matassem. Ninguém tinha que morrer, somente aqueles que ficaram para trás pelos motivos que descrevi. Nós na verdade não sabemos com certeza se entre os que ficaram haviam mulheres e crianças, ou apenas soldados. Mas estou pressupondo aqui o “pior cenário” para o bem do argumento.

[2] “We Don’t Hate Sin, So We Don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendum to ‘Divine Genocide’ Arguments,” Philosophia Christi 11/1 (2009): 52-72.

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