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William Lane Craig - “Para Que Ninguém Caia”: Uma Perspectiva do Conhecimento Médio sobre a Perseverança e as Advertências Apostólicas

“Para Que Ninguém Caia”:

Uma Perspectiva do Conhecimento Médio

sobre a Perseverança e as Advertências Apostólicas

 

William Lane Craig

 

Partidários da doutrina da perseverança dos santos caracteristicamente sustentam que, uma vez que uma pessoa seja verdadeiramente regenerada, não meramente ela não irá apostatar, mas que ela literalmente não pode decair da graça e perder-se. Comumente se pensa que esta conclusão segue do caráter irresistível e da eficácia intrínseca da graça de Deus: uma pessoa que foi regenerada pelo Espírito Santo é tão dominada pelo amor, poder e majestade de Deus, que ela simplesmente se torna incapaz de cometer apostasia. Por essa razão, todo aquele que através da operação soberana de Deus tem chegado ao conhecimento de Deus irá perseverar até o fim e ser salvo.

 

Entretanto, esta doutrina se coloca incomodamente com numerosas passagens na Escritura que advertem os fiéis do perigo da apostasia e descrevem os terríveis fins daqueles que caem da graça (por exemplo, Rm 11.17-24; 1Co 9.27; Gl 5.4; Cl 1.23; 1Ts 3.5; 1Tm 1.19, 20; 2Tm 2.17, 18; Tg 5.19, 20; 2Pe 2.20-22; 1Jo 5.16). O escritor da Epístola aos Hebreus, cujos leitores estavam tentados a voltar ao Judaísmo sob a pressão da perseguição, é especialmente explícito, alertando e exortando seus leitores contra o perigo da apostasia (6.1-8; 10.26-31), “para que ninguém caia” no mesmo exemplo de desobediência (4.11).

 

Embora alguns partidários da doutrina da perseverança têm tentado minimizar seu significado explicando tais passagens, primeiramente, sustentando que elas dizem respeito a pessoas que nunca foram verdadeiramente regeneradas,[1] tal alegação parece altamente duvidosa em virtude da linguagem destas admoestações, que parecem claramente ser direcionadas a crentes regenerados.[2] À luz deste fato, os defensores da perseverança que consideram estas passagens como sérias advertências aos cristãos têm oferecido uma outra explicação da compatibilidade da doutrina da perseverança e das advertências contra a apostasia: as próprias advertências são o meio pelo qual Deus preserva os eleitos.[3] Berkhof, por exemplo, observa,

 

Há advertências contra a apostasia que pareceriam completamente sem razão de ser, se o crente não pudesse cair... Mas estas advertências consideram a questão toda a partir do lado do homem e seu propósito é sério. Elas incitam os crentes ao exame de si mesmos e servem de instrumento para mantê-los no caminho da perseverança. Não provam que alguns dos seus destinatários irão apostatar da fé, mas simplesmente que o uso dos meios é necessário para impedi-los de cometer este pecado.[4]

 

Advertindo os crentes contra a apostasia, Deus assegura que eles não irão cometer apostasia.

 

Esta engenhosa resposta levanta toda sorte de questões intrigantes. Por exemplo, se a vontade do crente é tão dominada pela graça de Deus que ele de fato é incapaz de apostatar, então por que proferir tais advertências? Elas não seriam inteiramente supérfluas? Se, por outro lado, são as próprias advertências que efetuam a perseverança, então não é verdadeiro que o crente seja capaz de apostatar, ainda que, por causa das advertências, ele não irá se apostatar? Pois advertências não parecem agir como causas eficientes sobre a vontade, forçando alguém a agir de uma certa maneira; elas podem ser desobedecidas. Contraste, por exemplo, o fato de eu falar inglês como resultado de ser criado por pais de língua inglesa: eu estou determinado a falar inglês; eu não posso repentinamente escolher começar a falar vietnamita. Eu não tenho liberdade para simplesmente escolher qual língua falo. Agora, no caso das advertências, se elas são severas o suficiente e eu sou prudente, então certamente darei atenção a elas. Mas em virtude de ser advertido, não penso que queiramos dizer que minha liberdade tem, por meio disso, sido removida; está ainda dentro de minha capacidade desconsiderar as advertências, e se sou imprudente o bastante, talvez farei exatamente isso. Se então é meramente as advertências que garantem a perseverança, parece que o crente é de fato livre para desobedecê-las e apostatar, ainda que ele não irá. Eu assumirei, portanto, que as advertências não removem a liberdade humana.

 

O que parece estar em jogo na pergunta que estou levantando é uma proposição contrária aos fatos como

 

1. Se as advertências não tivessem sido dadas, os crentes teriam apostatado.

 

O defensor da perseverança considera (1) como verdadeiro ou não? Se ele acredita que (1) é verdadeiro, então parece claro que os crentes são de fato capazes de apostatar, pois nos mais próximos mundos possíveis em que o antecedente de (1) é verdadeiro, eles apostatam.

 

Agora, o defensor da perseverança poderia insistir que, mesmo se (1) for verdadeiro, todavia, dado o fato que os crentes têm, de fato, sido advertidos, eles não podem apostatar-se. Mas esta resposta comete um erro que é prevalecente nas discussões de pré-conhecimento divino e liberdade humana, a saber, confundir a necessidade de uma proposição in sensu composito com sua necessidade in sensu diviso. Proponentes do fatalismo teológico muitas vezes deixam de distinguir estes dois sentidos ao considerar uma proposição como

 

2. O que quer que seja pré-conhecido por Deus deve ocorrer, o que eles consideram exigir uma negação da liberdade humana.

 

Mas (2) in sensu composito significa meramente

 

2*. Necessariamente, qualquer evento que seja pré-conhecido por Deus irá ocorrer.

 

Neste caso, o que é necessário não é a ocorrência de qualquer evento per se, mas o estado composto das coisas consistindo do pré-conhecimento de Deus do evento e a ocorrência do evento. Toda a combinação é necessária, mas não os pares em particular. Por essa razão, esta necessidade in sensu composito de forma alguma é adversa à liberdade humana. Por outro lado, (2) in sensu diviso significa

 

2**. Necessariamente, qualquer evento, que seja pré-conhecido por Deus, irá ocorrer.

 

Isto não exige uma negação da liberdade humana, visto que o que é necessário é qualquer evento. Neste caso, não temos uma mera necessidade composta, mas um dos pares é afirmado ser necessário. O oponente do fatalismo teológico irá alegar que (2) quando entendido in sensu diviso, isto é, como (2**), é falso, mas quando entendido in sensu composito, isto é, como (2*), é verdadeiro, e que por isso o fatalismo teológico falha.

 

Similarmente, no caso da perseverança, se (1) é verdadeiro, então a proposição

 

3. Qualquer crente que foi advertido por Deus não pode apostatar-se

 

É no melhor dos casos verdadeiro in sensu composito, em outras palavras, é verdadeiro que

 

3*. Necessariamente, um crente que foi advertido por Deus não irá apostatar-se.

 

Mas de acordo com (3*) não é impossível que o crente cometa apostasia, o que é impossível é a combinação da advertência de Deus a ele e sua apostasia. A necessidade afirmada por (3*) é atribuída somente ao estado composto de coisas consistindo da advertência de Deus a um crente e a sua permanência na fidelidade. Mas esta necessidade composta de forma alguma remove a liberdade ou capacidade do crente de apostatar. Por outro lado, (3) é falso in sensu diviso, em outras palavras, é falso que

 

3**. Necessariamente, um crente, que foi alertado por Deus, não irá apostatar-se.

 

Pois se (1) for verdadeiro, então ainda que seja impossível ao crente tanto ser advertido quanto apostatar-se, é possível que ele cometa apostasia. Por essa razão, se (1) for verdadeiro, então a doutrina da perseverança classicamente entendida é falsa: o crente pode apostatar-se, mas necessariamente, se ele foi advertido por Deus, ele não irá apostatar-se.

 

Mas então suponha que o defensor da perseverança diga que (1) é falso, isto é, que o oposto de (1) é verdadeiro.[5] Nesse caso, as advertências pareceriam ser supérfluas. Pois se a graça de Deus é intrinsecamente eficaz de modo que o crente não pode apostatar-se, então é causalmente impossível que o crente cometa apostasia. Deus faz com que ele persevere na graça. Visto nesta luz, a doutrina da perseverança é um termo errôneo; pois não é na verdade perseverança, mas preservação que está em discussão aqui. O ponto crucial é que Deus preserva o crente no estado de graça causalmente agindo sobre ele, e por isso, é causalmente impossível que ele cometa apostasia, e dessa forma ele persevera. Mas se sua apostasia é causalmente impossível, então nenhuma advertência é necessária e as admoestações da Escritura perdem toda a seriedade.

 

O defensor da perseverança pode se libertar deste dilema, entretanto. Ele poderia sustentar que (1) é falso, mas argumentar que a razão de ser falso não é porque é causalmente impossível que o crente cometa apostasia, mas porque

 

4. Se as advertências não tivessem sido dadas, então Deus teria proporcionado algum outro meio de garantir que o crente perseveraria na graça.

 

Ele poderia argumentar que, devido à fidelidade e amor de Deus pelos eleitos, é uma impossibilidade completamente lógica que um crente cometa apostasia, porque em todo mundo possível em que um crente existe, Deus proporciona algum meio de assegurar sua perseverança. Visto que simplesmente não há mundos possíveis em que crentes caiam da graça, os mundos mais próximos em que o antecedente de (1) é verdadeiro deve ser mundos em que os crentes perseverem. As razões deles perseverarem podem ser numerosas, e não há razão para pensar que os crentes em qualquer mundo são causalmente constrangidos a perseverar. Nem pode alguém inferir da falsidade de (1) ou da verdade de (4) que as advertências bíblicas não são os meios pelos quais Deus garante no mundo real que os crentes perseverem.

 

Mas o problema com tal resposta é que ela claramente não distingue a doutrina clássica da perseverança de uma versão molinista dessa doutrina.[6] O cerne da questão se encontra na eficácia da graça de Deus: a graça de Deus é intrinsecamente eficaz ou extrinsecamente eficaz? De acordo com a doutrina clássica da perseverança, a graça de Deus é intrinsecamente eficaz em produzir seu resultado, o que equivale a dizer, a graça infalivelmente produz seu efeito. Mas de acordo com Molina, a graça divina é extrinsecamente eficaz, o que equivale a dizer, ela se torna eficaz quando se une à livre cooperação da vontade humana. Na opinião de Molina, Deus dá graça suficiente para a salvação a todos os homens, mas ela se torna eficaz somente nas vidas daqueles que respondem afirmativamente a ela.

 

Agora, dentro do Molinismo, existe uma escola chamada Congruísmo que concordaria um tanto apropriadamente com (4) e até com a impossibilidade claramente lógica de um crente cair da graça e, todavia, insistir que tal argumentação de forma alguma é incompatível com as asserções de que o crente livremente persevera e até que se encontra dentro da capacidade do crente renunciar a graça de Deus e apostatar-se.[7] O Congruísmo, como representado, por exemplo, por Suarez, defende que logicamente antes do decreto de Deus da criação, Deus livremente escolheu certos indivíduos para obterem a bem-aventurança. Por meio de Seu conhecimento médio, Deus sabia quais dons da graça seriam eficazes em extrair a resposta afirmativa livre destas vontades humanas. Por essa razão, Ele decretou criar um mundo contendo estes indivíduos e para lhes conferir esses dons da graça aos quais Ele sabia que livremente responderiam. Estes dons são extrinsecamente, não intrinsecamente, eficazes, visto que a vontade humana é livre para rejeitar tal graça, mas visto que tais dons são selecionados de acordo com o conhecimento médio de Deus, eles são congruentes com cada vontade criada, e por isso são infalivelmente deparados com uma resposta afirmativa. Deus sabe por meio de Seu conhecimento médio que ainda que o indivíduo poderia rejeitar Seus dons particulares da graça, de fato ele não iria rejeitá-los. Suarez parece sugerir que em qualquer mundo logicamente possível em que um indivíduo eleito existe, Deus concede, baseado em Seu conhecimento médio, graça congruente sobre essa pessoa, que assegura sua livre resposta. Aplicado à questão da perseverança, o Congruísmo poderia sustentar que Deus, por meio de Seu conhecimento médio, sabe exatamente quais dons da graça conceder em qualquer mundo possível à vontade de cada crente de modo a extrair uma resposta contínua de fé dessa pessoa. Conseqüentemente, todo crente irá perseverar até o fim em qualquer mundo que ele exista, ainda que ele seja livre e se encontra dentro de sua capacidade rejeitar quaisquer dons particulares da graça de Deus.

 

Tal doutrina congruísta da perseverança se mostra muito paradoxal porque, ainda que o crente livremente persevera e é capaz de rejeitar a graça de Deus, todavia não há nenhum mundo logicamente possível em que ele cometa apostasia. Tal doutrina é coerente?

 

Parece coerente, penso, para o congruísta manter que o crente livremente persevera ainda que ele não seja livre para apostatar-se. Que o crente livremente persevera é evidente do fato que, para qualquer graça congruente particular concedida a ele, há mundos em que o crente rejeita essa graça. Mas por meio de Seu conhecimento médio, Deus em cada um desses mundos oferece ao crente algum outro dom da graça ao qual Deus sabe que o crente livremente responderá. Então, mesmo que não haja mundos possíveis nos quais um crente cometa apostasia, não obstante os crentes livremente perseveram. O ponto crucial, mais uma vez, é que a graça de Deus é somente extrinsecamente eficaz, e por isso a liberdade do crente não é causalmente constrangida pela ação de Deus.[8]

 

Mas o crente é livre para abandonar a fé e apostatar-se? Por outro lado, não pareceria, visto que é uma impossibilidade completamente lógica que ele cometa apostasia. Certamente se um agente é livre para fazer alguma ação A, então deve ser uma possibilidade completamente lógica para ele fazer A! Mas por outro lado, nada causalmente o constrange em qualquer mundo a perseverar, de modo que a impossibilidade completamente lógica de sua apostasia depende de seu livre-arbítrio. Então como ele não pode ser livre? Parte do problema aqui é que a introdução de um Deus anselmiano na esfera da modalidade completamente lógica embaralha nossas percepções do que deve ser considerado como uma possibilidade completamente lógica ou uma necessidade. Por exemplo, parece intuitivamente óbvio que um mundo possível existe no qual coelhos são a forma mais alta de vida que existem em constante miséria. Mas como Thomas Morris observa, tal mundo é de fato uma impossibilidade completamente lógica porque seria inconsistente com um Deus anselmiano. Um ser maximamente perfeito não criaria uma situação de sofrimento constante como esse. Dessa forma, “...mundos concebíveis são (ao menos parcialmente) aqueles que, caso, per impossibile, o Deus anselmiano não existisse, seriam possíveis.”[9] Similarmente, nesse caso à disposição, temos o que parece intuitivamente ser um mundo logicamente possível (um no qual os crentes cometem apostasia), mas que se mostra ser completamente impossível porque Deus em Sua bondade essencial sempre age de modo a ganhar a resposta afirmativa livre dos crentes à Sua graça. Na raiz do paradoxo aqui parece estar uma deficiência na moderna classe de teoria das condições da verdade das proposições contrafactuais de Stalnaker-Lewis, a saber, a incapacidade da teoria de lidar com contrafatos que têm antecedentes impossíveis. Pois o que realmente queremos saber não é se (1) é verdade, mas se é verdadeiro que

 

1*. Se as advertências não tivessem sido dadas e Deus não tivesse proporcionado dons da graça, os crentes teriam cometido apostasia.

 

O problema é que na opinião que estamos atualmente considerando, o antecedente é uma impossibilidade completamente lógica porque Deus é bom demais para falhar em proporcionar dons adicionais da graça. Conseqüentemente, tendo um antecedente impossível, (1*) é vagamente verdadeiro, mas dessa forma é sua contraditória, visto que não há mundos que permitam antecedentes. Mas intuitivamente queríamos dizer que (1*) é falso se a graça de Deus é intrinsecamente eficaz e não-vagamente verdadeiro se Sua graça é extrinsecamente eficaz. Conseqüentemente, o congruísta estaria justificado em sustentar a liberdade do crente para apostatar ainda que não haja mundos em que ele exerça essa liberdade. Esta conclusão parece exibir a verdade da observação de Plantinga que o emprego de mundos possíveis não é adequado para lançar muita luz sobre a opinião de “dentro da capacidade de alguém.”[10]

 

Mas o congruísta está confinado em qualquer caso à posição de que não há mundos possíveis nos quais os crentes cometam apostasia? Uma cuidadosa reflexão sugere que não. Pois o conceito da graça congruente não significa graça que não pode ser rejeitada pela vontade criada, mas graça que é tão adequada à vontade criada que se for oferecida, ela não seria rejeitada. Conseqüentemente, mundos possíveis existem nos quais a graça que de fato seria congruente e eficaz, fosse ela oferecida, é rejeitada e, por isso, ineficaz. Nem precisa tais mundos ser mundos nos quais alguma outra graça oferecida por Deus seja congruente. O congruísta pode sustentar que em alguns mundos como esse toda graça oferecida por Deus é rejeitada pela vontade criada. A integridade da bondade e fidelidade de Deus ao crente é conservada em tais mundos porque Ele oferece ao crente a mais graciosa ajuda que Ele pode, mas o crente apóstata rejeita todo dom da graça que lhe é oferecido. Nem tal possibilidade compromete a doutrina da perseverança, visto que o congruísta irá sustentar que tais mundos não são factíveis ou realizáveis por Deus porque o crente de fato responderia a tais graciosas ajudas fossem elas na verdade oferecidas.[11] Em todo mundo realizável por Deus, Suas várias graças são congruentes e eficazes; por essa razão, não há nenhum mundo realizável em que os crentes cometam apostasia e se percam. Isto pode parecer estranho à primeira vista porque a palavra “factível,” que normalmente é usada para descrever a série de mundos realizáveis por Deus, tende a carregar com ela a conotação de que mundos não factíveis para Deus são mundos que Ele gostaria de realizar (como mundos nos quais todas as criaturas livremente sempre reprimem o pecado), mas não pode porque as vontades humanas deixam de cooperar. Mas no caso da perseverança, Deus sem dúvida alguma está satisfeito que mundos nos quais os crentes cometam apostasias são impraticáveis para Ele, e isso porque as vontades humanas sempre cooperam com Sua graça. Por isso, uma doutrina congruísta da perseverança não exige que não haja mundos logicamente possíveis nos quais os crentes caiam da graça.

 

Nesta luz (4) pode ser mais claramente expressado como

 

4.’ Se as advertências não tivessem sido dadas, Deus teria proporcionado outros dons da graça e o crente teria respondido livremente a estes.

 

O congruísta considera (4’) como verdadeiro, mas acredita que haja mundos possíveis nos quais o crente rejeita todos os outros dons da graça divina oferecidos a ele; ele acrescenta meramente que todos esses mundos são impraticáveis para Deus. Está por essa razão claro que, enquanto todos os crentes verdadeiramente regenerados irão perseverar até o fim, não obstante eles são livres para cometer apostasia.

 

Portanto, se o defensor clássico da perseverança for distinguir sua opinião de uma perspectiva molinista, ele deve fazer mais do que insistir na verdade de (4). Pois o congruísta também irá insistir que os crentes sempre perseveram na graça e que se as advertências bíblicas não fossem dadas, Deus teria oferecido aos crentes outros dons da graça que Ele sabia ser congruentes; mas ele também insistirá que o crente é inteiramente livre para rejeitar a graça de Deus e apostatar-se. O defensor clássico da perseverança deve, parece, se ele deve distinguir sua opinião do Molinismo, se ater à eficácia intrínseca da graça de Deus e, conseqüentemente, à impossibilidade causal da apostasia do crente. Mas nesse caso, as advertências da Escritura contra o perigo de apostasia parecem se tornar fúteis e artificiais. Talvez o melhor caminho para o defensor clássico tomar seja adotar uma espécie de ocasionalismo admonitório: que na ocasião de alertar o crente contra a apostasia Deus infunde Sua graça intrinsecamente eficaz para a perseverança.

 

Manter que as advertências da Escritura são os meios pelos quais Deus garante a perseverança dos eleitos é de fato adotar uma perspectiva molinista. Essa perspectiva não precisa ser tão radical como o Congruísmo. O molinista que se atém à perseverança dos santos pode considerar (4) e (4’) como falsos porque, em contradistinção ao congruísta, ele acredita que há mundos realizáveis nos quais os crentes rejeitam a graça de Deus e cometam apostasia. Em outras palavras, tais mundos não são meramente possíveis logicamente, mas são factíveis para Deus. Mas o molinista que adere à perseverança irá acrescentar simplesmente que Deus não decretaria realizar quaisquer destes mundos, ou até mais comedidamente, que Deus de fato não decretou realizar tal mundo. No mundo que Ele escolheu realizar, os crentes sempre perseveram na fé. Talvez as advertências na Escritura sejam os meios pelos quais Deus debilmente realiza sua perseverança. Em outras palavras, no momento logicamente anterior à criação, Deus por meio de Seu conhecimento médio sabia quem livremente receberia Cristo como Salvador e que espécies de advertências contra a apostasia seriam extrinsecamente eficazes em impedi-los de apostatarem-se. Portanto, Ele decretou criar para ser salvas somente aquelas pessoas que Ele sabia que livremente responderiam às Suas advertências e dessa forma perseverariam, e Ele simultaneamente decretou proporcionar tais advertências. Por causa disso o crente certamente irá perseverar e todavia ele age dessa forma livremente, considerando seriamente as advertências que Deus lhe tem dado.

 

Obviamente, o Molinismo não infere a doutrina da perseverança dos santos. O defensor do conhecimento médio poderia sustentar que logicamente anterior à criação Deus sabia que não haveria nenhum mundo factível para Ele no qual todos os crentes perseverariam ou que, se houvesse, tais mundos tinham deficiências predominantes em outros aspectos. Portanto, as advertências da Escritura não garantem a perseverança dos crentes, pois os crentes podem e as ignoram. Todavia, não me parece que aqueles que interpretam as advertências da Escritura como os meios pelos quais Deus assegura a perseverança dos santos abandonaram o entendimento clássico dessa doutrina e adotaram em seu lugar uma perspectiva do conhecimento médio sobre a perseverança.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes



[1] Esta parece ter sido a posição de João Calvino Institutes of the Christian Religion 3.3.21,24; 4.1.10; 4.24.6-11. Veja também seus comentários sobre Hb 6 e 10 em João Calvino, Calvin’s Commentaries, vol. 12: The Epistle of Paul the Apostle to the Hebrews and the First and Second Epistles of St. Peter, trad. Walter B. Johnston (Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans, 1963).

[2] Veja I. Howard Marshall, Kept by the Power of God (Minneapolis: Bethany Fellowship, 1983).

[3] Veja, por exemplo, Judy Gundry-Wolf, “Perseverance and Falling Away in Paul's Thought” (D. Theol. dissertation, Eberhardt-Karls-Universität Tübingen, 1987); para uma crítica, veja I. H. Marshall, “Election and Calling to Salvation in 1 and 2 Thessalonians,” ensaio lido no 38º Colloquium Biblicum Lovaniense, 1988, a ser publicado na Bibliotheca Ephemeridum Theologicarum Lovaniensium.

[4] Louis Berkhof, Teologia Sistemática (Campinas, SP: Luz Para o Caminho, 3ª. ed., 1994), p. 552.

[5] Isto é, que se as advertências não tivessem sido dadas, os crentes não teriam se apostatado. O defensor da perseverança poderia dizer que ambos (1) e seu oposto são falsos, mas eu considero esta posição como improvável. Veja minha crítica desta posição em Divine Foreknowledge and Human Freedom (Leiden: E.J. Brill, 1990), cap. 13.

[6] Veja Luis Molina, On Divine Foreknowledge: Part IV of “De Liberi Arbitrii cum Gratia Donis, Praescientia, Providentia, Praedestinatione et Reprobatione Concordia,” trad. com Introdução e Notas de Alfred J. Freddoso (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1988); William Lane Craig, The Problem of Divine Foreknowledge and Future Contingents from Aristotle to Suarez, Brill's Studies in Intellectual History 7 (Leiden: E.J. Brill, 1988), caps. 7, 8; Dictionnaire de théologie catholique, ed. A. Vacant, E. Mangenot, e E. Amann (Paris: Librairie Letouzey et ane, 1929), s.v. “Molinisme,” de E. Vansteenberghe, vol. 10, pt. 2, cols. 2094-2187.

[7] Veja Francisco Suarez, Opera omnia, vol. 10: Appendix prior: Tractatus de vera intelligentia auxilii efficacis, ejusque concordia cum libertate voluntarii consensus 1, 12, 13, 14; idem De concursu et auxlio Dei 3.6, 14, 17, 20; Craig, Divine Foreknowledge and Future Contingents, cap. 8; Dictionnaire de théologie catholique, s.v. “Congruisme,” de H. Quillet, vol. 3, pt. 1, cols. 1120-38.

[8] Veja as muito estimulantes observações de Thomas V. Morris, The Logic of God Incarnate (Ithaca, N. Y.: Cornell University Press, 1986), pp. 151-52. Ele imagina um caso no qual o cérebro de Jones é ligado com elétrodos de tal forma que se ele tentasse escolher diferentemente do que ele escolhe, os elétrodos seriam ativados e impediriam essa escolha. “Ele não poderia possivelmente ter feito de outra forma, mas, para falar a verdade, nada à parte de suas próprias decisões o efetuou aquilo que ele fez como ele fez” (Ibid., p. 152). Substitua elétrodos pela graça congruente de Deus e vemos que Jones livremente persevera ainda que não haja mundos nos quais ele não persevera. De fato, visto que a graça de Deus é, diferente de elétrodos, somente extrinsecamente eficaz, a livre perseverança de Jones é tanto mais evidente.

[9] Morris, Logic of God Incarnate, pp. 112-13.

[10] Alvin Plantinga, “Ockham’s Way Out,” Faith and Philosophy 3 (1986): 265.

[11] Sobre a noção de mundos factíveis para Deus, veja Thomas P. Flint, “The Problem of Divine Freedom,” American Philosophical Quarterly 20 (1983): 257.

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Perguntas Respondidas

A morte de Cristo por todos os homens pode ser concluída de diversas passagens das Escrituras:

1 – Daquelas que dizem que ele morreu por “todo homem”, por “todos os homens”, por “todos”, pelo “mundo”, por “todo o mundo”:

Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. [2Co 5.14-15]

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. [1Tm 2.5-6]

Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. [Hb 2.9]

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. [1Jo 2.2]

2 – Daquelas que dizem que Deus em Cristo reconciliou o mundo:

Pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. [2Co 5.19]

3 – Daquelas que dizem que Cristo daria sua vida pelo mundo:

Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. [Jo 6.51]

4 – Daquelas que dizem que a graça veio sobre todos os homens:

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. [Rm 3.23-24]

Portanto, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação e vida. [Rm 5.18]

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens. [Tt 2.11]

5 – Daquelas que dizem que Deus deseja a salvação de todos os homens:

Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? [Ez 33.11]

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. [1Tm 2.3-4]

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. [2Pe 3.9]

6 – Daquelas que dizem que o Evangelho deve ser pregado a todos os homens:

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. [Mc 16.15-16]

E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém. [Lc 24.46-47]

Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam. [At 17.30]

7 – Daquelas que dizem que Jesus veio salvar os perdidos:

Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. [Lc 19.10]

8 – Daquelas que dizem que Jesus é o Salvador do mundo ou de todos os homens:

E diziam à mulher: Já não é pela tua palavra que nós cremos; pois agora nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo. [Jo 4.42]

Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem. [1Tm 4.10]

E nós temos visto, e testificamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo. [1Jo 4.14]

9 – Daquelas que dizem que Jesus veio salvar o mundo:

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. [Jo 1.29]

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. [Jo 3.16-17]

E, se alguém ouvir as minhas palavras, e não as guardar, eu não o julgo; pois eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. [Jo 12.47]

Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, no apartar, a cada um de vós, das vossas maldades. [At 3.26]

10 – Daquelas que dizem que Jesus se entregou por aqueles que o rejeitam:

Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. [Jo 6.32-33]

11 – Daquelas que dizem que Jesus morreu pelos judeus:

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. [Is 53.6]

Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. [Jo 11:51]

12 – Daquelas que dizem que Jesus morreu pelos ímpios ou veio salvá-los:

Pois, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios. [Rm 5.6]

Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. [1Tm 1:15]

13 – Daquelas que dizem que Jesus morreu por aqueles que se perdem ou que correm risco de se perderem:

Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. [Rm 14.15]

Pela tua ciência, pois, perece aquele que é fraco, o teu irmão por quem Cristo morreu. [1Co 8.11]

De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça? [Hb 10:29]

Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. [2Pe 2.1]

A cláusula final, porque a fé não é de todos, visa ser uma explicação da conduta hostil dalguns. aqui pode ser entendida no sentido de confiança (nem todos os homens exercem fé) ou, menos provavelmente, como o corpo da fé (nem todos os homens aceitam a fé). As versões oferecidas por Frame, pág. 292, “pois a fé não é para todos” e “não são todos que são atraídos pela fé,” são menos prováveis que a de “porque nem todos os homens têm fé” (RSV), que entende a cláusula como espelho de experiência de Paulo. A declaração talvez pareça um pouco banal e desnecessária. Terá maior relevância se for visto não tanto como conclusão daquilo que acaba de ser dito quanto como introdução ao versículo seguinte; ou seja, Paulo a escreveu para servir de ligação com o versículo seguinte ao invés de ser uma declaração importante isoladamente. Ao mesmo tempo, a cláusula transmite o reconhecimento de Paulo de que, embora a oração seja em prol da pregação bem-sucedida da palavra, nem todos creem nem crerão.

I. Howard Marshall, I e II Tessalonicenses: Introdução e Comentário, p. 250

O escritor de Hebreus pede agora aos seus leitores que voltem o olhar para Jesus, exaltado acima de todos e assentado à destra do trono de Deus.

O verbo olhar – em olhando firmemente – é aphorontes (Αφορωντες), que significa tirar a vista das coisas que estão perto e desviam a nossa atenção e, conscientemente, fixar os olhos em Jesus como o nosso grande alvo. Significa ainda interesse que absorve por completo, perfeitamente expresso pelas palavras com olhos só para Jesus.

A expressão autor e consumador da nossa fé tem sido interpretada de várias maneiras. A palavra traduzida como autor é archegon (Αρχηγος), líder, pioneiro, sendo o mesmo vocábulo traduzido como capitão (da nossa salvação) em Hebreus 2.10 (KJ). A palavra consumador é teleioten (τελειωτής), aperfeiçoador, que completa (cp. Hb 10.14).

Em olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da nossa, o possessivo nossa [que aparece nas versões KJ e na NVI, mas não na ARA e na ARC], antes de , está em itálico ou entre parêntesis, pois no grego temos apenas a . No entanto, não significa a no sentido objetivo, como o fundamento cristão, mas subjetivo, como o princípio que rege o coração e a vida do ser humano.

A escolha da palavra archegon, líder ou pioneiro, em vez de aitios (αἴτιος), autor, no sentido de originador, é muito significativa. Como observou Davidson, na presente acepção, as palavras não “podem significar que Cristo, como Autor, originou a fé em nós e, como Aperfeiçoador, sustém-na e a leva a um resultado perfeito”, isto é, incondicionalmente quanto ao conceder e ao aperfeiçoar; a ênfase é, antes, sobre Cristo como o grande Pioneiro da fé que, na Sua vida terrena, tendo perfeitamente alcançado o ideal e terminado a corrida, está agora assentado à destra do trono de Deus.

Em Hebreus 2.10 a palavra archegon, como capitão (KJ), refere-se em especial à preparação de Jesus para a liderança; neste caso, Ele se tornou o Alvo da realização, o Centro de toda a visão cristã. No entanto, é ainda o Líder, que do Seu trono nos céus ministra pelo Espírito a força, a perseverança, paciência e toda a graça necessária em meio ao sofrimento e aos conflitos. Para os que o seguem com confiança, Ele se tornará o aperfeiçoador, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram (2 Ts 1.10 ARA).

A seguir, o autor da Epístola aos Hebreus passa a uma consideração da experiência de humilhação de Jesus, vividamente descrita para encorajamento dos leitores – palavras que são apenas a amplificação de Sua obra como o autor e consumador da fé.

O escritor encontra três semelhanças entre os herois da fé e Jesus. Pela fé, aqueles passaram por grandes lutas e aflições, em parte porque foram exibidos como espetáculo ignominioso, em parte porque se tornaram companheiros dos que foram alvos daquelas tribulações. Assim também Jesus, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia (Hb 12.2b). Esta oração é introduzida pela palavra anti (ἀντί), que significa dar em troca ou, especialmente aqui, em consideração de.

O vocábulo traduzido como alegria é charas (χαρά) – não aquilo a que Jesus renunciou ao encarnar, mas a alegria que lhe estava proposta. Era a alegria como recompensa do Seu autossacrifício pela salvação dos homens; um autossacrifício que em si mesmo era uma recompensa satisfatória. Mas significava também a alegria de ser exaltado ao trono de Deus e levar consigo a Sua natureza e a nossa, coroando assim a obra redentora por toda a eternidade. Era a alegria de administrar do trono a Sua vida celestial mediante o Espírito Santo, e assim aperfeiçoar para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Esta foi a alegria que lhe foi proposta – uma alegria que enche com a Sua glória.

 O que fez Jesus pra ter essa alegria? Suportou a cruz. Temos aqui de novo a palavra hupemeinem (ὑπομένω), anteriormente traduzida como paciência, mas aqui mais propriamente traduzida como suportou com perseverança.

A palavra traduzida como cruz é stauron (σταυρός), viga ou poste introduzido no chão para execução de criminosos, vindo depois a significar a cruz.

A frase não fazendo caso da ignomínia ou desprezando a afronta (ARC) foi chamada o grande paradoxo. Desprezar a afronta não significa que Cristo a tinha por desprezível, mas por pequena, comparada com a alegria que lhe foi proposta.

As palavras cruz e vergonha (NVI) são usadas sem o artigo para salientar a qualidade – coisas como a cruz e a vergonha, e assim servem para colocar em maior relevo a profundidade da abnegação de Cristo. Jesus, sendo santo em si mesmo, foi intensamente sensível à vergonha da cruz, morrendo aos olhos da Lei como um criminoso, mas não permitiu que isso fizesse vacilar Sua lealdade à vontade do Pai.

H. Orton Wiley, A Excelência da Nova Aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus, pp. 509, 510

Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi. Is 55.3

Jo 3.1-16

Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Jo 5.25

E não quereis vir a mim para terdes vida. Jo 5.40

Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. Jo 20.31

Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Rm 5.18

Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas. Cl 2.12, 13

É verdade que o pastor começa 1Tm 2.1 solicitando que orações sejam feitas por todos os homens, e então especifica reis e governantes. O “todos” do verso 1 claramente não pode ser restringido tomando o verso 2 com o significado de “a saber, reis e governantes.”
 
Há mais a ser dito para a opinião de que ele queira dizer “todas as classes de pessoas, incluindo (por exemplo) reis e governantes (que vocês devem ter negligenciado).” Mas isto leva a um problema. O propósito da oração pelos governantes no verso 2 é “para que tenhamos uma vida quieta e sossegada.” Não é uma oração pela sua salvação (embora isso não seja necessariamente excluído), mas antes é uma oração para que governantes não-cristãos possam levar uma vida de tal forma que os cristãos não sejam molestados mas livres para viver uma vida devota. Mas então temos um problema com os versos 3-6, que oferecem um reforço muito estranho para um comando para orar para que cristãos possam levar uma vida sossegada.
 
É melhor assumir que o pastor começou a escrever no verso 1 de oração pela salvação de todos os homens e então foi desviado para mencionar a necessidade particular para orar pelos governantes para que os cristãos possam ter paz para viver uma vida devota. Admitidamente é estranho que o propósito de fato expressado pela oração não é um desejo pela paz para proclamar o evangelho (à maneira de Rm 15.31-32; 2Ts 3.2) mas pela paz para viver vidas devotas. Parece que o pastor está dizendo que orações de todos os tipos sejam feitas por todas as pessoas. Ele menciona incidentalmente a necessidade de incluir orações pelos governantes para que os cristãos possam viver em paz, mas seu principal pensamento é que orações sejam oferecidas pela salvação de todas as pessoas. O pensamento no verso 1 é assim reassumido no verso 3, e o verso 2 é parentético. Se assim, não há nenhuma razão para supor que “todos os homens” significa qualquer outra coisa que “todas as pessoas no mundo.”
 
Mas poderia a expressão no verso 1 ainda simplesmente significar “todas as classes de pessoas,” tais como reis, governantes, e outras categorias? Obviamente, se a referência é literalmente a “todos os homens,” então “todas as classes de homens” estão implicitamente incluídas e pretendidas. Mas se a referência é a “todas as classes de pessoas” – para quem a oração deve ser feita e quem Deus deseja que seja salvo – então o pastor está declarando que, visto que o propósito salvífico de Deus inclui pessoas de todas as classes, devemos orar por todas as classes.      Mas como isto ajuda o defensor da doutrina da expiação limitada? Ele então tem que dizer que oração deve ser oferecida pelos “grupos eleitos dentro de todos os grupos na sociedade” – por exemplo, pelos reis eleitos dentro do grupo dos reis. Ele pelo menos sabe que haverá pessoas eleitas em todo grupo social, mas ele terá que projetar sua oração “para aqueles números (limitados) de pessoas dentro de todo e cada grupo que Deus pretende salvar.” Não há, obviamente, nenhuma razão para orar pela salvação dos não-eleitos, que não irão ser salvos; embora alguém possa orar para que eles não molestem os cristãos (v. 2). E há a dificuldade que alguém não sabe se indivíduos específicos pertençam aos eleitos ou não. Presumivelmente alguém simplesmente ora para que a vontade de Deus de salvar aqueles que são eleitos em todo e qualquer grupo social seja cumprida. Mas isto não é de fato o que o pastor diz aos seus leitores fazerem; ele ordena oração por “todas as classes de pessoas” (nesta interpretação), não para que oremos que a vontade de Deus relativa aos seus eleitos, que serão achados entre todas as classes de pessoas, seja cumprida. Dessa forma a interpretação da expiação limitada tem que recorrer ao que parece torcer o texto, e não há em qualquer caso nada no texto que sugira esta interpretação antes que a interpretação literal.
 
I. Howard Marshall, The Grace of God the Will of Man, 61-63

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